Grandes Achados Vol. I

Fryda, obrigada pela formatação. A história também está no ABCles .

ALERTA: Contém palavrão, drogas, sexo e lesbianismo (ui!)

Capítulo 1: No início de tudo

Hellena estava excitada. Havia um certo receio de estar fazendo uma grande burrada. Medo de ser uma dessas coisas que a gente faz porque quer muito fazer, mas depois se arrepende, porque fez sem pensar. Hellena não queria pensar. O fato é que estava deitada em sua cama esperando sair do banheiro a mulher que tanto sonhou possuir – e ser possuída.
Seu primeiro beijo, sua grande paixão, “a mulher mais lindinha do mundo”. Hellena sorriu lembrando do jeito como se referia a ela no início de tudo. Chorou por ela, sonhou com ela, delirou por ela. Desejou, desejou, desejou e ali estava ela.
Dali a poucos minutos Ana Maria sairia do banheiro e provavelmente iniciaria um daqueles joguinhos tolos que começavam com “não, não faça isso!…”. Mas dessa vez tudo seria diferente. Tudo seria definitivo.
—Dessa vez eu quero tudo! Quero e vou ter! – disse Hellena para si mesma, afastando qualquer outro pensamento.
Havia dentro de si algo querendo dizer: “não faz assim, Lelê, pensa bem… esse não é o momento… sua vida agora é outra…”
Mas ela não se deixava cair muito tempo nesse pensamento lúcido, afastava de si essa conversa correta. Já tinha sido correta tantas vezes e o que ganhou?
—Foda-se! Foda-se o mundo,  sei lá o que eu ganhei… eu quero essa mulher. Quero hoje, quero agora, quero aqui.
Sorriu satisfeita por estar exatamente onde sempre quis: deitada à espera da mulher desejada.
Ajeitou-se para se concentrar melhor em seu objeto de sua luxúria. “Luxúria?… luxúria… Luxúria!”, sussurrava experimentando o som da palavra. Cruzou as mãos por trás da cabeça, esticou bem as pernas na cama e ficou balançando os pés também cruzados, um tanto impaciente. Sorria um sorriso canalha, passando a língua nos dentes.
Ouvindo a água cair do chuveiro, Hellena balançou levemente a cabeça, mas não conseguiu evitar a lembrança do início de tudo: Abril de 2004.
Três anos antes, Ana Maria perdeu-se no Universo. Escola, cursinho, “As melhores cabeças“, dizia a propaganda.
“Rubens Salgado!”. A moça disse o nome ao porteiro como se fosse uma senha. O rapaz apenas indicou que entrasse. E ela entrou com tudo, como se conhecesse o local. Na verdade, Ana estava nervosa. Ganharia hoje a oportunidade de fazer um trabalho que daria visibilidade à sua carreira. Ou perderia essa oportunidade. Estava com 26 anos e trabalhava para uma agência de publicidade. Ana era webdesigner, mas trabalhava como arte-finalista.
Um amigo indicou seu trabalho para “repaginar“ o site do Universo, que, como o dono, Rubens Salgado, era muito tradicional. Não agradava aos alunos, nem aos professores. Formado em administração, o filho do empresário, Rubinho, entretanto, havia convencido o pai de que era hora de mudar, “investir em novas ferramentas”. O amigo em comum entre ambos, Marco Antônio, havia indicado Ana Maria para o serviço. “Super gatinha!”, ele disse cheio de más intenções: Marco Antônio deliberadamente não simpatizava com a namorada de Rubinho e queria “jogar gasolina no fogo”. No momento, sua idéia de diversão era fazer o amigo se impressionar com a webdesigner.
Ana Maria não sabia, mas havia sido indicada ao serviço mais por seus dotes físicos do que por sua experiência com o Photoshop e o CorelDraw. Naquela manhã, a designer acordou duas horas mais cedo do que o habitual, tomou um banho, revisou seus melhores trabalhos no velho notebook e ficou ensaiando o que dizer na entrevista com o dono do Universo.
Vestiu-se sobriamente, sem qualquer afetação, e foi! Entrou com tudo no Colégio. Agora estava perdida nos corredores. Olhou no relógio e viu que havia tempo ainda. Estava quase 20 minutos adiantada. Caminhou lentamente tentando familiarizar-se com o ambiente.
Deparou-se com a cantina e foi até lá buscar informações. Uma senhora simpática lhe apontou a sala, que ficava em outro corredor. Antes de ir para a entrevista, um café com leite. “Talvez seja melhor um chocolate…”, pensou ainda nervosa, desejando uma barra de chokito.
– Hell… você é um inferno! – gritou uma ruivinha simpática.
– Shhhh! Fala baixo menina! Assim todo mundo vai saber que você me ama – Disse a morena, arrancando vaias, assovios dos alunos.
Alta, do tipo magnética, a mulher mais velha adiantando-se à frente do grupo de alunos e reforçou a algazarra da turma que acompanhava, aos berros, as duas pelo corredor.
– Se acha muito, profi – riu a ruivinha agarrando o braço da morena.
A professora aceitou o carinho sem olhar para os lados, fazendo uma cara igualmente arrogante e divertida. Um rapaz mais alto que a professora passou o braço pelo seu ombro livre e pediu:
– Hellzinha, você não vai fazer uma prova violenta, vai?
– E eu já te violentei alguma vez, bonitinho? – perguntou falsamente insinuante a morena, arrancando novas risadas da turma
– Crianças, vão tomando leitinho aí, porque tia Hellena ai ali pensar numa provinha deliciosa pra vocês… E não façam nada que eu fizesse! – Dessa vez, a professora arrancou um riso até de Ana Maria, que parecia ter esquecido momentaneamente o nervosismo.
A morena percebeu a reação – e o lindo rosto – de Ana e seguiu mantendo no rosto o riso que trazia da conversa com os meninos. Compartilhando o mesmo sorriso da designer, deu uma piscadela divertida e seguiu para a sala dos professores. Ana não pensou no assunto, mas achou charmoso o jeito largado da professora. A mulher era dona de uma voz segura e poderosa. Jeans, all-star, cabelo negro desalinhado até o ombro, baby-look branca e um sorriso deslumbrante. Parecia bem diferente das professoras que Ana costumava ter no ensino médio.
A designer foi para a entrevista um pouco mais leve. Ficou ainda menos tensa quando entrou na sala do diretor e encontrou o rapaz moreno, muito jovem, sentado na cadeira principal. Rubens Júnior estava no lugar do pai. Combinou com o dono do Universo que trataria ele mesmo da contratação da webdesigner. Rubinho, antes acostumado a obedecer às ordens do pai, estava agora começando a tomar a dianteira nos negócios.
Ele não chegou a ficar realmente impressionado com o trabalho que a moça trouxe no notebook. Não que fossem ruins, mas eram poucos. Bons, mas não empolgantes. Por outro lado, Ana tinha um jeito sério. Acreditou nela quando disse que estava disposta a dar o melhor de si nessa nova empreitada e que se os trabalhos apresentados não estavam excelentes é porque estava realmente iniciando. Rubinho gostou da sinceridade da moça.
Pesava também o fato de que, não sendo uma profissional muito conhecida, não extrapolaria o orçamento que havia combinado com o velho Salgado.
– Então, façamos assim, vamos investir nessa experiência e você me apresenta uma proposta para um up-grade no nosso site – selou o jovem diretor.
– Eu vou me esforçar para atender suas expectativas – respondeu Ana Maria, quebrando a seriedade inicial com um sorriso que era de puro alívio. Estava contratada.

Capítulo 2: Contato com o Universo
O trabalho de Ana Maria começou naquela mesma semana, pela manhã. Além de recriar as páginas, ficou incumbida de tirar novas fotos da Escola e dos alunos. Haviam as fotos profissionais solicitadas pelo senhor Salgado, mas Rubinho queria imagens mais espontâneas, inclusive de alunos – Gente gosta de se ver! dizia o jovem, que planejava, com Ana Maria, páginas do tipo —coluna social“. Ele disse a ela que circulasse à vontade pelos corredores e colhesse o quanto precisasse de imagens. Ana adorou a Canon 40D de Rubinho e clicou a fachada do Universo, detalhes do prédio.
Foi tomando gosto e clicando os corredores, biblioteca, laboratório de informática e o pátio interno, onde ficava a lanchonete. Olhou discretamente algumas salas pelo vidro, mas não sentiu coragem para fotografar. Uma hora e meia depois, Ana Maria havia colhido uma boa mostra de imagens e já começava o tratamento digital de algumas delas, quando Rubinho entrou no CPD, onde Ana estava. Conversaram sobre o trabalho e ele disse que seriam necessárias imagens das salas.
– Eu até tive vontade de fazer, mas fiquei sem graça de pedir disse ela.
– Ah, isso é verdade. Eu simplesmente esqueci de apresentar você pra equipe. Foi mal.
Ana disse sorrindo:
– Mas isso aqui é uma escola. Não tem como não fotografar o andamento das aulas
E assim combinaram como seria feito o trabalho. No intervalo, o diretor apresentou Ana Maria à equipe de professores, supervisores e os demais do corpo docente. Ana reconheceu entre eles a professora “Hell”, como escutara os alunos falando: estava com fones pendurados no pescoço e assistia um vídeo no celular. Parecia não dar a mínima ao que o diretor falava. Rubinho aproximou-se da professora e, dirigindo-se para Ana Maria, falou:
– E esta bem educada é a professora Hellena Vargas, a estrelinha deste Universo
Ana Maria sorriu. Os demais professores tiravam brincadeiras com Hellena enquanto esta mostrava a língua debochadamente para o diretor. Sorriu, piscou e fez um sinal de positivo com o dedo para a designer, enquanto Rubinho continuava a falar:
– Se precisar de uma turma para fotografar , Ana Maria, tenho certeza que a professora Hellena terá um imenso prazer em ajudá-la.
Ana buscou os olhos da professora para tentar confirmar o que disse o diretor e Hellena apenas balançou a cabeça afirmativamente, mantendo a expressão divertida no rosto. … Hellena lembrou-se de ter visto a moça na manhã anterior. Baixinha, muito branca, cabelos encaracolados até o meio das costas. Uns lábios bem desenhados, olhos castanhos claros, dentes perfeitamente alinhados. Seios pequenos e, com certeza, pernas grossas.
– Parecida a Cláudia Abreu disse Hellena para Armando, o professor de inglês, seu grande amigo.
– Oh, Hell, não viaja. Todo mundo que você conhece tem logo que achar parecido com um artista – disse o professor, procurando algo na bolsa.
– Te juro Armandito, amanhã você dá uma olhada nela. Bonitinha que só. Mas tem uma coisinha triste no olhar dela, quase não sorri – disse a professora abrindo a pequena folha de papel e oferecendo ao amigo
– Se me desse bola, eu pegava.
– Aaaaaaaahhh! Agora surtou de vez. Oh, Hell, vamos combinar: você não pega nem mosca! Tá com esse papo de que vai agarrar uma mulher pelo menos desde que começou a faculdade e eu só te vejo grudada no “Môo” – Armando fez cara de nojo ao pronunciar a palavra “mô“ e foi derramando as folhas secas na folha branca que a amiga oferecia.
– Oh, biba, que maldade. Eu não pego, mas eu sonho. Tenho uma vontade louca de experimentar… e com essa daí, definitivamente, eu tentaria disse a amiga ajeitando melhor ao papel e começando a enrolar as folhas.
– Se tivesse vontade mesmo, tu já tinha catado qualquer uma daquelas meninas que ficam te cantando na balada. Mas tu só quer andar com homem e não toma uma atitude. Vai ficar velha e não vai comer mulher nenhuma – disse Armando despejando sua ironia sobre Hellena.
O rapaz adorava provocar a amiga
– E me dá essa porra pra cá que tu nem sabe bolar.
– Oh, biba, que amargura. Vai pra sauna que tu ralaxa! – Riram juntos.
Era fim de tarde e estavam no apartamento de Armando. Fumaram e falaram bobagens até alta noite. Dormiram quase abraçados, assistindo “E o vento levou…“


Capítulo 3: Ana e Hellena

Ana Maria bateu na vidraça da sala de Hellena. Terceiro ano. Quase nove da manhã. Levantou a máquina fotográfica e arqueou as sobrancelhas para a professora, como quem pede consentimento. Hellena fez um sinal com a mão, dizendo que entrasse.
– Bom dia professora, posso fazer umas imagens – pediu Ana Maria causando imediatamente iniciou-se uma algazarra na sala. Um dos meninos fez um barulho com a boca, chupando o ar para dentro da boca e fazendo biquinho, como fazem os cafajestes quando querem indicar que uma mulher é gostosa.
– Shhhh… sentado! – disse Hellena para o aluno mais atrevido, erguendo um pouco a voz e balançando a mão, fazendo a turma aquietar –se
– Olha o respeito!
Ana Maria achou de novo muito charmoso o jeito como a professora controlava a turma, mas não sorriu. Manteve a expressão séria de quem realmente queria apenas fazer seu trabalho.
– Pode fotografar Ana. Eles são esquisitos, mas não mordem.
– Oooooohhh! – a turma já ia se manifestar, mas um novo “shhhhhh!“ da professora fez com que calassem.
Ana fotografou a sala, o espaço, a movimentação, as expressões dos alunos, mas, sobretudo, fotografou Hellena. Pensando bem, nem precisava, mas ela realmente ficava bem através da lente. A professora tinha uma graça ao se mexer. Parecia um tanto viril naquele jeans e com o mesmo tênis de três dias atrás. Mas havia também uma certa delicadeza nela. Dedos longos, uma pele clara. Morena sem sol. O cabelo era liso, mas, se fosse um tipo mais delicado, com certeza estaria na escova ou na chapinha.
Entretanto, ela tinha fios desalinhados que rebolavam na lateral do rosto atraente. Uma vasta cabeleira negra, desalinhada e ainda assim muito elegante. Uns fios soltos… Enquanto olhava pelos olhos da Canon, Ana Maria imaginou se a professora desalinhava os fios daquela maneira elegante, todos os dias, pela manhã e criava para si um visual pequeno príncipe.
- Ai, que coisa boba pra se pensar… – recriminou-se a designer.
- Então, uma maneira de vocês não se assustarem com os termos gramaticais corretos é, antes de tudo, aprender a dominar o sentido das palavras. Hoje vocês estão fresquinhos, então já sabem de trás pra frente o que é pronome, artigo e o adjetivo na análise morfológica. Mas eu pergunto aos senhores, questão de prova: o que é um superlativo absoluto sintético? – perguntou de surpresa a professora.
– Um palavrão! – Respondeu rapidamente um aluno gordinho, parecendo divertir-se com as risadas na turma.
– Certa resposta! – disse Hellena, entrando na brincadeira
– É mesmo um palavrão. E é por isso que vocês só conseguem responder bobagem quando perguntados. Mas se eu pedir um exemplo, capaz de intuitivamente alguém acertar… Quer ver só? – a professora fez a última pergunta dirigindo-se à visitante, mas logo voltou sua atenção para a turma, que aguardava o suspense
– Qual o superlativo absoluto sintético do adjetivo “gostosa”?
Silêncio por breves segundos e a uma voz arriscou:
- Gostosíssima?!!
Hellena levantou a palma das duas mãos para cima, sorriu balançando afirmativamente a cabeça, concordando com a resposta e respondeu:
– Com um exemplo como o meu – disse virando as mãos para o próprio corpo – não há como errar uma pergunta dessas!
A turma ensaiou uma algazarra, mas Hellena emendou uma apresentação formal do que é um superlativo absoluto sintético na gramática portuguesa.
Ana Maria segurava um olhar encantado, que não passou despercebido pela professora. Hellena era espontânea e, embora brincasse com a turma, parecia nunca perder as rédeas da situação. Ana Maria tinha um sorriso suave no rosto quando agradeceu à professora pela atenção e foi para o CPD verificar como ficaram as imagens. Começou o tratamento digital. Ficaram boas as fotos. A claridade da escola ajudava. E, enquanto analisava os resultados, a designer flagrou-se olhando as fotos da professora.
Tinha um corpo fantástico essa Hellena. ….. Ana Maria é hetero. “Convicta. Sem dúvida!”, dizia a si mesma, quando, vez ou outra imaginava como seria acariciar o rosto de outra mulher ou quando sentia um desejo estranho ao ver partes ocultas de outros corpos femininos.
Quase nunca pensava nisso, mas lembrou-se de que na escola havia uma garota “um pouco menos feminina”, que ia pra aula de bicicleta, ouvindo um walk-cd. Ela sempre e lhe chamara a atenção. Nunca se dirigia a moça, mas estava sempre observando seus passos, seus gestos, ouvindo sua voz.
Na faculdade de Ana, havia pelo menos três meninas do grupo chamado “as geeks”, que gostavam de informática. Não andavam de saltos e não usavam maquiagem. Uma delas costumava encarar Ana Maria cinicamente no intervalo das aulas. Ana não gostava disso e detestava quando suas amigas diziam, “amiga, a Patrícia te quer!”. Não suportava a brincadeira.
Ana Maria não costumava falar nada sobre esse assunto – aliás, nem sobre qualquer outro. Era uma pessoa extremamente reservada. Mas, mesmo aborrecida, não conseguia perder a curiosidade sobre o modo de vida “das geeks“. Olhando as fotos de Hellena, não conseguia parar de pensar “coisas estranhas”, como o interesse exagerado que sentia por aquelas meninas.
Afastou o pensamento balançando a cabeça, mas não conseguiu parar de olhar as imagens de Hellena. “Que sorriso lindo!”. No intervalo, Hellena perguntou a Rubinho como estavam as coisas com o novo site. Ele disse que estava acreditando no trabalho da webdesigner e falou sobre o bom andamento do trabalho.
Atendendo as expectativas da professora – perguntou a Hellena se ela poderia dar uma revisada no material. “Nossa, até duas!”, pensou Hellena que, sorriu sincera ao diretor e, aceitando a proposta, disse apenas: – você adora me explorar!
Ele não levou a sério. Em um dos intervalos, Hellena e Rubinho foram juntos ao CPD. O material de Ana estava começando a tomar forma e algumas páginas estavam com uma apresentação mais moderna e ágil. O diretor explicou à designer que Hellena estava disposta a ajudá-la a revisar alguns textos e a apresentar melhor alguns espaços da escola. Falaram sobre o assunto por algum tempo e então Ana ficou a sós com Hellena.
Era quarta-feira e a professora estava com o último horário livre. Sentaram próximas, frente ao computador e revisitaram as páginas. Intimamente, as duas adoraram o perfume uma da outra.
– Um cheiro delicioso, amadeirado, suave. E uma pele tão branquinha que dá pra ver as veias aqui no colo! – Disse Hellena a Armando uns dois dias depois.
– Amiga, você vai acabar babando em cima dessa mulher – retrucou o professor
– Mas, tá bom, vou te alegrar: confesso que eu também achei ela um pouco parecida com a Cláudia Abreu.
– A-le-luia! Nem acredito que uma vez na vida o senhor resolveu concordar comigo.

– Ah, mas lembra daquela uma que a gente encontrou na balada e você insistiu que parecia com a Angelina Jolie? Naaada a ver, bombom.
– Oh, maldoso, eu te falei que a Raíssa tem aquele olhar matador da Angelina. E tem mesmo. Faltam os lábios, tudo bem, mas ela olha pra gente parecendo que vai vir pra cima destroçando com tudo. Me dá até arrepio.
– Jesus Maria José! Sexta-feira, quase onze da noite e eu aqui falando de mulher. Tô “louca” mesmo falou o professor arrancando risos da amiga
– E mulher que nem eu nem você vamos comer. Ahhh!! Só eu fumando unzinho pra esquecer!
Fumaram, beberam e foram pra balada. Hellena estava de novo se escondendo de seu “Mô”, que não gostava de sair à noite e muito menos da companhia de Armando.
— Não vou abrir mão de meus amigos, ela disse ao namorado quando começaram.
De fato, não reduziu um milímetro no que havia dito. Ele aceitava. Hellena era sempre mais interessante quando não contrariada. 

Capítulo 4: A palavra L


A outra semana demorou pra iniciar. Maio, mês das noivas. Ana estava começando a concluir o trabalho. Trabalhava corretamente no prazo proposto, embora trabalhasse na escola apenas pela manhã. A tarde, como havia combinado com Rubinho, continuava na agência de publicidade.
Durante a semana, Hellena ia rotineiramente ao CPD para verificar o andamento das coisas e dar apoio ao trabalho de Ana. Além de atender às ordens do senhor diretor, atenderia sua vontade cada dia maior de estar pavoneando em volta da designer.
Gostava de ficar por ali, exibindo-se e admirando a outra mulher. Não tardou a deixar claro para ela que gostava de vê-la trabalhando. Hellena sempre gostou de assuntos ligados à informática. Montou em casa sua própria rede, foi a primeira na escola a comprar um pendrive com mp3 player. Volta e meia estava pela sala da designer mostrando levando suas novidades eletrônicas. Era difícil driblar os alunos, que, mais do que qualquer adulto, adoravam os brinquedos que a professora levava para o Universo.
Mas, Hellena sempre dava um jeito de fazer uma cara mais séria perto deles e encerrar um assunto com “tenho um trabalho a fazer!”. O assunto ultimamente envolvia sempre uma certa designer. Ana era centrada no trabalho. Adorava quando Hellena aparecia por ali, com seu charme moderno. Entretanto, o máximo que exibia era um sorriso de canto de olho e um olhar convidativo. Ouvia os comentários da outra sobre o seu trabalho, aceitava sugestões, mas pouco se manifestava com a presença da professora. Exceto às vezes, quando ela realmente estava exalando simpatia e sentia denso o clima criado entre elas. Quase podia tocá-lo, como fumaça no ar.
Hellena estabelecia um cheiro, um tom de voz, uma harmonia de palavras, um charme visual. Tudo isso encantava a designer que às vezes, só às vezes, se manifestava. Como no dia em que Hellena sentou bem ao seu lado e puxou a cadeira um pouco mais para trás, como se fosse encaixar-se em sua lateral, com as pernas abertas.
– Esse fundo azul aqui eu achei que dificulta um pouco a leitura do texto, né não? – disse a professora apontando um dedo para a tela.
A outra mão no encosto da cadeira de Ana, quase roçando em suas costas.
– O que cê acha que eu devo fazer? – Perguntou a designer inclinando um pouco o rosto para o lado em que estava a professora, mas ainda olhando para a tela.
Hellena encarou o rosto de Ana. Teria entendido errado a linguagem do corpo ou a outra mulher realmente voltou-se um pouco mais para perto de si quando ficou numa posição de encaixe? Hellena teve a sensação da pergunta, mas não chegou a formulá-la mentalmente, porque aproveitou a proximidade de Ana e, num ímpeto, respondeu, olhando de perto a pele aveludada:
– Faz o que for melhor.
– O que você acha que é melhor? – Disse Ana com a voz baixa, voltando o rosto para Hellena e olhando os lábios bem desenhados da professora.
Hellena sentiu o coração disparar. Aquela mulher linda estava realmente olhando seus lábios e perguntando o que deveria fazer? Mas que tipo de diálogo era aquele? Hellena estava dominada pela situação. Raramente ficava sem ter uma resposta na ponta da língua. Quando ficava assim, desconcertava-se totalmente. Este era o caso: Hellena não sabia o que fazer.
Seu coração disparava e sua vontade era de simplesmente derreter-se olhando aquele rosto lindo, que tão de repente cresceu à sua frente. Agora sentia seu cheio e calor. O hálito de Ana era delicioso. A professora quis que aquele instante durasse para sempre. Mas precisava urgente de uma resposta. Então, balançou a cabeça como quem vai dizer “não sei“, mas apenas aproveitou para aspirar o hálito quente da designer.
Como nada melhor surgia em sua mente, Hellena usou também o tom mais baixo de sua voz para responder:
– Você é a especialista. Tome uma atitude.
Aquela mulher estava mesmo de pernas abertas e braços abertos, com uma mão agora tocando em suas costas. Os olhos de Hellena tinham cílios enormes, encurvados, lindos. O rosto não podia ser descrito como perfeito. Nariz cumprido, maçãs salientes e uma cicatriz no supercílio esquerdo. No entanto, o conjunto era muito mais que harmonioso.
Ana tinha admirado a beleza da professora desde o minuto em que a viu no pátio com os alunos, mas jamais estivera assim tão perto, percebendo como tudo nela era tão perfeitamente atraente. De repente, ali bem perto, a Hell segura e toda cheia de si parecia ter desaparecido e deixado em seu lugar uma garotinha sem palavras. “Tome uma atitude“, ela disse, sem se mover.
Onde estava aquela Hellena cheia de estilo? Ana percebeu-se também sem resposta. Que tipo de atitude? Estavam falando sobre o background da página. Ana não tinha jeito para jogos de palavras. Restou-lhe apenas voltar aos fatos inicias.
– Vou botar branco – disse a designer ainda olhando nos olhos da professora.
Por alguns segundo esperou que Hellena tomasse uma atitude. Que tipo de atitude, não saberia dizer, mas teve a impressão de que esperava outra coisa quando sentiu vazia a resposta da professora.
– Branco é excelente! disse Hellena, quebrando o contato visual e olhando para a tela do computador.
A professora sentiu-se roubada com a resposta. Roubada por si própria. Logo percebeu que não obteria outra resposta da designer. Ana voltou-se quieta para a máquina
– O Google é branco! Até o quarto de deus deve ser branco – completou Hellena, dessa vez arrancando um sorrisinho da outra mulher. A professora adorava fazer surgir as covinhas nas laterais daquele rosto macio.
– Você é… interessante!… – disse Ana, mantendo o sorriso nos lábios e os olhos na tela.
A pergunta fez Hellena aproximar-se às costas de Ana.
– Interessante como? – perguntou Hellena intrigada.
-… hmmm!… Eu ia dizer que você é engraçada, mas não é exatamente isso. Você é divertida também, mas é mais que isso… inteligente, não sei… interessante! – elogiou a designer, sem olhar para a professora.
– E você linda! – respondeu Hellena sem conseguir segurar a vontade de dizer. As duas se olharam por um breve instante e mantiveram o sorriso.
Não voltaram mais a falar no assunto naquela manhã.
– Beeee! A gente teve um momento! Te juro.
– Molhou a Duloren? perguntou Armando, quando a amiga começou a dar os detalhes da aventura.
– Nãaaao! Fiquei com o coração na mão. Ah, sei lá, talvez eu até tenha molhado a calcinha, mas não é isso o que importa. O que importa é que eu tava lá, louca pra dar uns beijos naquela boca e acho que ela estava correspondendo.
Hell, background de página de internet nem é assunto pra se ter um momento. Olha a fantasia, amada!

– Ah, mas foi um momento. E ela falou com aquela voz baixinha. Quase desmaiei. Fiquei hipnotizada olhando aquela boquinha perfeita, cheia de dentes perfeitos e com aquela lingüinha perfeita se mexendo lá dentro, enquanto aqueles olhos perfeitos olhavam bem nos meus lábios.
– De cima?  perguntou o amigo.
– Afff, Maria! Nem dá pra te contar as coisas, nefando… Pôooo, o problema é sério! –  reclamou Hellena da gozação de Armando.
– Então tá, Hellzinha, desabafa. Ela te deu uma confiança e você, fez o que?
–Eu falei pra ela tomar uma atitude. Falei “Você é a especialista…” – respondeu a professora fazendo cara de “eu-sei-que-fui-idiota”.
– Oh, passiva! Se você não tomar um atitude, nunca vai experimentar. Porque essa daí pode até querer alguma coisa, mas tenho certeza que não vai mover um músculo. Vai por mim que eu conheço o tipo “ sou hetero”.
– Ai, vampiro Armand, que atitude eu tenho que tomar? Eu tava coladinha nela. Eu vou lá todos os dias. Eu puxo conversa mais que tudo. Que porra de atitude eu ainda tenho que tomar? – perguntou Hellena tentando descobrir o que estava errado em sua tática.
– Como disse a Luciana Gimenez, ”Não sou paga para pensar”. Hahahahaha! – Gargalhou Armando, mas logo percebe que a cara de Hellena estava mudando de angustiada para irritada. Achou melhor não provocar mais e disse:
– Oh, amada, você também só joga charme. Na hora do vamo-ver precisa de alguém pra te atacar. Olha, esquece The OC e vai ver The L Word, amiga, porque de tática bolachística eu não entendo nada. Se fosse um bofe eu te dizia pra fazer o teste do dedinho na coxa, mas parece que isso não cola com mulher.
– Que teste do dedinho? Como é que se faz? – questionou interessada na possibilidade de aproveitar qualquer dica.
– É assim: a gente, no meio da conversa, encosta a mão na perna do bofe. Se ele não se incomodar, a gente encosta um dedinho. Se ele não ligar, a gente bota outro dedinho, e vai botando até que enfia a mão toda. Aí, se a mão já estiver lá e ele não te der uma bifa, pode segurar na mala que não tem erro. Tá tudo liberado. Esse teste é pá-pow! Não tem erro – garantiu o professor.
– Afff, que coisa esquisita. Nem me vejo fazendo isso com homem, que não vale nada, avalie com uma florzinha como a Ana.
– Ah, tudo bem, porque a XX me disse que esse lance não dá certo com mulher – completou Armando, referindo-se a uma lésbica que conhecera na faculdade, a quem “carinhosamente” costumava chamar de “Xupa-Xana”.
–  Óbvio que isso não dá certo, beee. Nem vou discutir o tema. Tá certíssima a XX – retrucou Hellena, lamentando a inaplicabilidade dos conhecimentos do professor para o seu caso com Ana Maria.
Nessa mesma tarde, Armando voltou a insistir pra que Hellena aprendesse mais coisas do universo lésbico com a série The LWord. A professora chegou em casa interessada e jogou o assunto no Google. Encontrou um grupo de discussão, no Yahoo!, que disponibilizava arquivos através do mIRC. Logo Estava na rede com o nick Troiana.( “Hellena, Tróia…” e balançou o indicador e o polegar , rindo para si mesma da obviedade da conexão).
Passou horas fazendo o download do primeiro episódio, com uns 800MB. Assistiu e logo gastou mais uns poucos minutos para, antes de dormir, fazer uma homenagem à personagem Marina Ferrer. Com a devida proporção de altura, dormiu pensando em Ana lhe seduzindo ao estilo Marina. Dormiu feliz.


Capítulo 5: Posso te fazer uma pergunta?


Hellena acordou sentindo-se “um pouco mais gay“. Foi pra escola mais cedo e com um humor melhor do que o de costume. Às 7h30 estava gritando “bom dia, moçada!“, numa animação que era pura provocação no ouvido sonolento dos alunos.
Dava aula numa animação típica de sexta-feira, embora fosse ainda o segundo dia útil da semana. Em outro canto do Universo, Ana Maria gastava uns minutos da manhã na cantina, ouvindo conversas. Poderia ter encerrado logo, mas ficou esfriando o café com leite, observando a movimentação na escola. Na verdade, tinha esperança de ver Hellena mudando de uma sala para outra. Mas, quando a professora finalmente saiu, Ana já não estava lá.
No intervalo, Hellena foi até a sala da designer e mandou lá da porta um “bom diiiiiia!” como havia feito com os alunos. Ana olhou para o teto e respondeu “bom dia”, sem se virar para a outra. Hellena ficou achando graça. Incrível como cada gesto daquela mulher parecia cheio de encanto. Ficou observando os cachos caindo sobre os ombros, parecendo um penteado antigo, daqueles que as mulheres gastavam horas arrumando.
Então a designer fez uma pausa, como se fosse dizer alguma coisa e olhou Hellena nos olhos.
– O que foi? – perguntou a professora percebendo que a outra mulher tinha alguma intenção no olhar.
Hellena tinha desejos crescentes pela designer e uma enorme esperança de que a outra fosse fazer qualquer menção a elas duas. Ana Maria manteve o olhar, mas não respondeu. Apenas balançou negativamente a cabeça e voltou-se para o monitor. Ana era realmente um tipo sem muitas palavras. Era difícil arrancar-lhe um sorriso, mas as conversas pessoais eram ainda muito mais raras.
Hellena estava curiosa, mas não queria parecer afoita demais. Resolveu respeitar o tempo de Ana.
– Então tá jóia!… Quando for algo me fala, tá? – disse a professora, zombando do silêncio.
Ana não se deixou levar e continuou trabalhando. Mas estava mesmo com uma pergunta para fazer e não sabia exatamente como pronunciar as palavras. Achou que saberia exatamente o que dizer, mas quando viu Hellena entrar toda animada na sala perdeu-se novamente admirando a figura esguia da professora. O dia correu normal: aula, trabalho, alunos, conversa pelos corredores.
No fim da manhã, na saída, Ana Maria ouviu a pergunta atrás de si:
— E agora, já tem alguma coisa pra dizer?
Espantou-se com Hellena quase encostando nela:
– Achei que já tinha ido – disse Ana, ignorando a pergunta da professora.
– Estava corrigindo alguns trabalhos e tenho umas provas pra planejar… – respondeu Hellena, que poderia ter feito em casa tanto uma coisa quanto a outra.
Esperava que a designer não refletisse muito sobre o assunto
– Quer uma carona?
– Pra onde você está indo?
– Estou indo te dar carona, e você? — “nossa, Hellena, essa foi bem direta”, alegrou-se a professora enquanto terminava a frase.
Embora não quisesse pensar muito nesse assunto, Ana entendeu que aquele era um pretexto para conversarem um pouco mais.
– Lá pra Prefeitura – respondeu a designer, dando a direção de seu destino.
– Vai falar com o prefeito?
– Nãaao – sorriu Ana Maria, achando engraçado o jeito da professora – na verdade vou pra agência, que fica lá pertinho.
Hellena sabia que Ana trabalhava em uma agência no expediente da tarde. Mas esperava que o lugar fosse um pouco mais distante do que a Prefeitura, que ficava a uns 15 quarteirões do Universo. Queria poder ter um pouco mais de tempo para conversar com a outra.
—Ì, senhor, fazei com que o trânsito esteja lento! –  desejou a professora.
Para a sua sorte, o trânsito estava exatamente como desejou. No carro, Hellena derramava charme. Deixou Nina Simone cantando “My Baby Don’t Cares” e dirigia sem pressa, enquanto uma chuva forte começava a cair.
– Olha aí… Te salvei!- disse a professora, deixando o carro em ponto morto e virando o corpo para olhar a designer de frente.
O carro estava em uma fila enorme, que parecia não andar. Ana não olhou de volta. Novamente aquele silêncio que precede uma frase, que não vem.
– Fala! – Hellena voltou ao assunto, com uma voz mansa. Na verdade, estava quase derretida.
Ana fez uma pausa, escolhendo as palavras:
– Posso te fazer uma pergunta?
– Claro! Vai em frente… – incentivou Hellena com um ar feliz.
Estava se preparando para “A pergunta”, aquela que deveria marcar o início de alguma coisa mais séria: “você é gay?”. A professora tinha ensaiado essa resposta há alguns dias: “Até agora, não! Ainda não me deram a chance”, sorriu pensando no diálogo, enquanto encarava o rosto meio nervoso da outra. E se ela sorrisse também e ficasse meio ruborizada, Hellena teria certeza de que poderia ensaiar outro passo e ir mais adiante. Ficaria mais tranqüila achando que, enfim, seria apenas uma questão de achar o momento correto e acertar um beijo tranqüilo naqueles lábios lindos .
Enquanto Hellena se divertia com esses pensamentos, Ana procurava o tom certo das palavras para perguntar:
– Você e o Rubens são namorados?
Hellena ficou surpresa com a pergunta. Não esperava. Esperava um assunto muito diferente. Mas a outra estava ali a sua frente, esperando uma resposta. Ruborizou, deu um sorriso nervoso, andou um pouco com o carro, voltou a encarar a designer. Ana parecia não ter uma expressão no rosto sereno, apenas aguardava uma resposta. Para Hellena, era tão complicado falar sobre esse assunto. Nada do que pensava como resposta parecia ser absolutamente verdadeiro. Agora era a professora quem não tinha palavras. Nina Simone cantava “Cry me a river”, quando Hellena respondeu a pergunta balançando a cabeça afirmativamente.
O carro ficou com um imensamente pesado depois da pergunta. Nenhuma das duas conseguia pensar em mais alguma coisa pra dizer. A válvula dos assuntos parecia estar entupida pela relação com Rubens. Não que fosse um grande segredo, mas Hellena nunca gostou da idéia de que outras pessoas da escola comentassem a relação dos dois e fazia de tudo para evitar intimidades na escola. Pensou em como Rubens era tão mais carinhoso que ela, em quantas vezes o censurou por suas demonstrações de afeto e, finalmente, nas vezes em que quis encerrar o namoro de uma forma civilizada, mas protelou por pura falta de jeito e coragem. Para a professora, aquele era um balde de água fria em suas ótimas intenções com a designer.

Queria explicar, mas não sabia de que maneira e nem mesmo se a outra tinha algum interesse em saber o que significava aquilo. Ana havia escutado o comentário naquela manhã, mas havia desconfiado depois de perceber os olhares do diretor para a professora. Para ela, não fazia muita diferença se fosse verdade ou não. A designer achava que isso queria dizer que Hellena não era gay. Ainda assim, era uma mulher intrigante, charmosa e que estava sempre à sua volta. Era lisonjeiro ter uma mulher assim lhe dispensando atenção. E se não continuava a conversa era tão somente porque era Hellena quem estava sempre puxando assunto. Mas a professora estava sem condições de ensaiar um diálogo.
Quando estavam quase chegando, Hellena ofereceu um Trident a Ana Maria. Haviam trocado algumas poucas palavras sobre o trânsito e a chuva. Ana estava achando interessante a maneira como a professora, sempre tão segura, agora parecia desconcertada. Aceitou o chiclete, retirou uma unidade e, na hora de devolver o pacotinho, não o fez na mão de Hellena, que estava manobrando para encostar o veículo. Ana enfiou o Trident no meio das pernas da professora, que tomou um susto com a mão encostando em sua virilha.
Olhou para a designer sem ter o que dizer e viu a outra aproximando-se rápido para beijá-la no rosto, apoiando o corpo na mão pousada na coxa da professora. Ana encostou os lábios aspirando o cheiro que vinha de Hellena, estalou um beijo e disse quase num sussurro: “Obrigada!“. Saiu correndo do carro, protegendo-se da chuva, deixando lá dentro uma Hellena cheia de dúvidas e tesão. 

Capítulo 6: “Aqui não!”
– Então, vai ser um jantarzinho simples, a quatro. O Marcão está simplesmente encantado por essa garota e insiste que eu deva conhecê-la, quer dizer, que nós devemos… Hellena?
Rubens tentava conseguir uma resposta da professora, mas ela parecia não ter assimilado bem a idéia de jantar com Marco Antônio, fazer social com “a Pati da vez” e conciliar isso tudo com a vontade de deixar claro as coisas com o namorado.
“Namorado?!!”A palavra simplesmente gongava mentalmente na cabeça de Hellena. Quase não dormiu à noite, perdida entre a falta de iniciativa para encerrar a relação e a louca vontade de dizer a Ana que estava…
— O que eu estou mesmo?
“Meu Deus, Hellena, pensa! Organiza tudo na sua cabeça”. Não ligou para Armando, narrando o drama do dia. Não porque o professor se enfadava rápido com os dramas femininos, mas porque Armando nunca aceitou muito bem o namoro de Hellena com “Rubens Precinho Salgado”.
O professor ficava insuportavelmente irônico quando Hellena narrava suas desventuras com o diretor. Preferiu ficar quieta e pensar sozinha. Sem o ombro amigo, a mulher fritou na cama a noite inteira pensando em como finalizar o plácido, delicado, gentil e, por muitas vezes, divertido namoro com o diretor.
Queria mandar a placidez às favas. Havia sentido um tesão avassalador pela designer na manhã anterior. Não poderia estar ali simplesmente combinando um jantar cheio de cenas para alimentar um namoro que já não tinha mais espaço em sua vida. Definitivamente, Hellena precisava tomar uma decisão urgente.
– Não vou! Não gosto do Marco Antônio, não tenho o menor interesse pelas namoradas dele e não quero sair hoje – ela disse com muito mais violência do que esperava de si mesma.
– Eu simplesmente não entendo essa implicância com o cara, mas tudo bem. Se você não quer sair, quer dizer que não quer fazer nenhum outro programa hoje, não é? – perguntou o diretor sem esconder a irritação.
– É. Não quero – respondeu Hellena secamente.
No fundo, ela procurava um motivo para arranjar um desentendimento com o namorado.
– Tudo bem, Hell! – rebateu Rubens, enfatizando o apelido que ele mesmo não gostava de usar
– Não vou brigar com você por causa disso. Vou ver o que faço e depois te digo – encerrou o rapaz, virando as costas para Hellena e saindo sem se dizer mais nada.
Estavam no corredor do Universo e nenhum dos dois gostava de fazer cenas em público. Hellena sentia-se culpada e aliviada ao mesmo tempo. A professora foi para suas aulas, mas a cada intervalo de tempo sentia vontade de ir até a sala de Ana Maria. Tinha a incrível necessidade de esclarecer as coisas com aquela mulher, contar detalhes de sua vida. Porém, mesmo depois de passar a noite toda pensando no assunto, ainda não havia formulado o que dizer: “Quero namorar você”, “quero beijar você”, “estou encantada por você”, “quero transar com você”.
Hellena se imaginava dizendo cada uma dessas frases e não achava nenhuma delas vagamente aceitável. Talvez fosse melhor explicar que a relação com Rubens estava encerrando e então convidá-la para fazer um programa qualquer fora da escola. Um cinema, um barzinho, uma tarde no shopping. Pensava nas alternativas que tinha para iniciar um diálogo com a designer, mas achou melhor deixar que o clima entre as duas ditasse as regras.

Ana Maria estava aguardando a visita da professora. Tinha um sorrisinho no rosto. Depois de tocar no meio das pernas de Hellena e ver como a outra reagiu, Ana havia ficado feliz por confirmar o interesse que despertava. O fato de Hellena ter namorado era extremamente cômodo para Ana, pois indicava que a outra mulher, apesar do interesse desperto, tinha convicções e um modo de vida semelhante ao seu. Ana estava certa de que, apesar de desejar todos os confortos de uma “vida normal”, marido, filhos e família reunida, sentia um desejo adolescente, não saciado, de conhecer a maciez de outra pele feminina.
O perfume floral adocicado que exalava do corpo de Hellena tinha o poder de fazer Ana se imaginar tocando a suavidade daquela pele, descobrindo sabores e sentindo arrepios. Estava com o sorriso nos lábios, pensando nessas sensações, quando a porta abriu. Hellena entrou sem a animação habitual. Falou um “oi” rápido e sentou-se ao lado de Ana Maria.
A professora estava visivelmente confusa. As palavras tomavam rumos opostos aos seus pensamentos. Ficou ainda mais nervosa quando percebeu o sorriso divertido de Ana. Não era o que esperava. Tinha pensado em uma Ana Maria um pouco mais tímida, ou mais séria talvez. Entretanto, toda aquela situação estava deixando a professora ansiosa e estressada. Precisava esclarecer as coisas e tomar de volta as rédeas de sua história.
– Por que você trancou a porta? – perguntou Ana, mantendo a expressão meio cínica no rosto.
– Quero falar com você – respondeu sem convicção a professora, que não esperava ter sua manobra revelada por uma Ana tão detalhista.
– E precisa trancar a porta?
– Precisa.
– Por que?
– Por isso – Hellena, que estava em pé, abaixou-se e beijou delicadamente os lábios de Ana.
Por um segundo, caiu em si e percebeu que não era nada daquilo que havia planejado. Aquele piloto automático estava agindo sem uma rota definida. Por outro lado, encostar naqueles lábios era uma vontade que já não cabia mais dentro de si. Aquele toque lhe despertava uma sensação nervosa, insana e deliciosa. Mas, aos poucos, Hellena foi percebendo que a outra não apenas não correspondia àquele beijo como, ainda sentada, tentava afastar (sem muita convicção) seu corpo com as mãos.
Mas e os sinais? E os olhares? E aquela mão boba em suas pernas? A professora pausou o beijo e respirou profundamente, sem descolar os lábios. Percebeu-se do erro. Sentiu-se enganada, ludibriada. Irritou-se. Aquele provavelmente seria o primeiro e único beijo que conseguiria arrancar da designer, então faria ao menos com que valesse a pena.
Dessa vez, ignorando os protestos, beijou com mais vontade, segurando com fúria os braços da designer. Hellena prendia entre os seus, alternadamente, os lábios superiores e inferiores da boca adorada. Ana dizia “Não! Não!”, mas os beijos não paravam e, em meio a um protesto maior, aproveitou-se da boca aberta e deslizou sua língua para aquela câmara macia. Sentiu que aquele seria o fim. Entregava sua língua para ser mordida e estava certa de que sairia dali ferida bem mais do que apenas em seus brios.
Entretanto, por brevíssimos segundos, sentiu uma leve sucção em sua língua e, por instinto, empurrou ainda mais o corpo estranho para o encontro da outra língua, que esfregava-se macia e delicadamente à sua. Breves segundos. Então, mais uma vez, Ana livrou-se do beijo e disse “Não! Não!”. Recebeu novos beijos insanos em seus lábios, ignorando as palavras:
—Aqui não!

Hellena despertou da fúria.
—Aqui não!
Sim, foi exatamente isso o que ouviu de Ana Maria. Então haveria um “Aqui sim” em algum outro lugar.
– Onde então? – disse Hellena, parando o beijo e perguntando para Ana, absolutamente feliz.

Capítulo 7: Faroeste Caboclo


Ana parecia manter ainda o mesmo sorriso cínico de antes do beijo. Hellena não se importou. Estava completamente embriagada pela emoção de um possível “sim”. A professora queria muito ser aceita por aqueles lábios, que lhe sorriam como a Monalisa.
A designer apenas encarava de modo superior aquele olhar encantado, tentando descobrir o que viria depois daquele arroubo de paixão furiosa. Não havia pensado em Hellena perdendo a graça felina de seus gestos tão seguros e partindo assim para um ataque tão ofegante.
– A gente conversa sobre isso depois – disse a designer de maneira fria, mudando completamente o assunto.
– Nem pensar! Quero falar disso agora – rebateu a professora, virando para si a cadeira de Ana, que tentava voltar-se novamente para o monitor.
Olharam-se por alguns instantes. Estavam na escola. De portas fechadas, sem qualquer justificativa. Dava para escutar a algazarra do intervalo. Hellena não gostava de fazer cenas, mas estava determinada a prosseguir com o assunto. Por outro lado, Ana procurava finalizar o evento da maneira mais prática.
– Mais tarde – disse enfim.
– Mais tarde quando? – perguntou a professora.
– No fim da tarde.
– Depois que você sair da produtora?
– É. Pode ser – respondeu Ana de forma displicente, virando-se para tela e tentando continuar o trabalho.
– Fechado! – disse Hellena, levantando-se para destravar a porta
– Que horas você sai?
– Sete – informou a outra, ainda de maneira fria.
– Vou estar te esperando na porta – afirmou a professora.
Ana não respondeu, apenas assentiu com a cabeça e continuou o que estava fazendo. Hellena não esperou resposta e saiu, tentando segurar o sorriso que teimava em brotar em seu rosto. “Aqui não!”. A frase não lhe saía da cabeça.
Estava absurdamente ansiosa por saber como seria o “Aqui sim”. Este, com certeza absoluta, estaria reservado para algum lugar mais calmo, em hora mais adequada, mas naqueles mesmos lábios rosados, naquela pele tão alva com um cheiro amadeirado.
Hellena tentava disfarçar o sorriso insistente. Só conseguiu quando avistou Rubens, que, de longe olhou pra ela sem esboçar qualquer reação. A professora não s e sentia traindo o namorado, mas sabia que era preciso, por respeito, encerrar a relação com Rubens antes de ir buscar o que quer que desejasse com Ana ou qualquer outra pessoa. Era preciso respeitar tudo o que havia vivido junto ao seu amado amigo, companheiro, amante e… chefe!
Riu. De verdade, ela não se importava com o fato de Rubens ser o diretor do Universo, mas ser seu chefe estava mesmo no rol dos títulos do namorado, então não havia como deixar passar a idéia sem mencioná-la. Entretanto, o que importava para professora era o fato de que precisava ter a decência de, antes de se jogar novamente nos braços, nos lábios, nas carnes e onde mais houvesse para se jogar em cima de Ana, por princípios, era imprescindível que explicasse a Rubens Salgado que não cabia mais uma relação entre eles. Talvez coubesse até uma tentativa de explicar que ela estava irremediavelmente ligada a outra pessoa e que, melhor do que magoá-lo com uma traição, seria deixar as coisas esclarecidas e acertar um ponto final.
Obviamente, deixar as coisas esclarecidas com Rubens em um momento decente da relação de ambos implicaria em ter que adiar o tão ansiado encontro com Ana, ao fim da tarde. Mas isso era algo que Hellena não estava disposta a perder. Antes dos princípios, havia a necessidade. E a professora precisava daquele encontro com urgência. Estava determinada, ansiosa e excitada. Sentia milhões de borboletas bailarinas sincronizando vôos espetaculares por seu estômago, a cada leve lembrança de sua língua sendo tragada para o abismo mágico onde habitava a língua de Ana. “Fodam-se todos os princípios!“, pensou Hellena, afastando de si qualquer outra idéia ou sensação que não fosse aquela deixada pelas incríveis borboletas bailarinas.
As horas se arrastavam, as aulas eram intermináveis e as pessoas puxavam assuntos absurdos. “Que tipo de mulher discute o tom certo de esmalte para combinar com vestido azul claro?”, perguntava-se retoricamente a professora, enquanto assentia com a cabeça, sorrindo falsamente para a orientadora educacional. A mulher discutia o tema e afirmava a outra professora que a melhor opção seria o rosa “Quinta Avenida“, da Colorama, buscando a concordância de Hellena. “O tipo que eu não tenho a mínima vontade de pegar”, respondia-se mentalmente a professora, olhando insistentemente para o relógio. “Será que parou?”.
Horas torturantes depois, Hellena estava prostrada no carro, olhando a saída da produtora. Balançava as pernas. Mudou o CD, mascou um chiclete. Estava 15 minutos adiantada. “Faroeste caboclo é ótima. A gente canta e tenta não errar. Se errar , volta ao começo. Se não errar, mesmo assim já se passaram nove minutos”, dizia divertida a si própria.
Sete horas, Hellena estalou os dedos, manteve os olhos fixos no prédio. “Será que ela também está ansiosa? Será que está feliz?”. Cantarolou “Cry me a river” e Ana não saiu. Talvez estivesse esperando que os colegas se fossem. Talvez estivesse envergonhada ou sem graça. E se estivesse, talvez fosse porque tivesse gostado. “Quer fazer de novo”, vangloriava-se a professora. Sete e dez. Sete e quinze. Hellena impacientava-se pela demora. O que Ana estaria pensando? Sete e meia foi a gota. A professora levantou-se e perguntou ao vigilante onde estava Ana Maria.
– Ela saiu mais cedo. Não falou nada, simplesmente saiu.
– Não deixou nenhum recado, não disse onde ia? A gente tinha combinado fazer umas coisas agora à noite – explicava esperançosa ao rapaz da portaria.
– Não disse nada não. Nunca vi sair mais cedo. Mas não disse nem tchau – comentou o jovem, mostrando-se simpático com a professora.
Hellena gelou. De raiva. Empalideceu, perdeu a fala. Nem conseguiu agradecer a informação. Apenas balançou a cabeça e abandonou o lugar, levando consigo a mágoa de um marido traído. “Praga do Rubens!”, disse pra si mesma, iniciando uma série de impropérios que pareciam o avesso de uma oração. Iam de lamentações aos praguejo e dos pequenos urros aos palavrões. “Filha de uma puuuuta!”, xingava, pensando em Ana Maria, “aquela vaca!”. “Mentiu, me enganou, me iludiu. Me fez de idiota, me fez de babaca, me fez esperar…”.
Hellena remoia com gosto a raiva que sentia da designer. Tentava pensar no troco que daria, mas nem um pensamento parecia completo. Era melhor voltar aos xingamentos…
Ana Maria estava um tanto quanto nervosa por ter deixado a professora esperando. Imaginou-se no lugar dela, esperando, esperando e, depois, descobrindo-se enganada. Teria ficado magoada, com toda certeza. Entretanto, não poderia deixar Hellena marcar encontros à força. Não se deixaria ser obrigada a fazer o que não queria ou não estava preparada para fazer, apenas para satisfazer os caprichos da outra.
No dia seguinte, com mais calma, explicaria a Hellena que não vai agendar encontros daquela forma, sob a ameaça de ser beijada em seu local de trabalho, ainda que aquele beijo tenha lhe encharcado bem mais que a boca… Embora tivesse cedido à tentação de acariciar a língua que lhe invadia imperiosa e ágil, não aceitaria imposições.

Por mais que tenha desejado puxar um pouco mais para si aquele pedaço de carne quente e macia, não poderia aceitar ser assediada daquela forma. “Onde se ganha o pão não se come a carne”, lembrava-se do dito popular repetido por sua velha avó. “Por mais linda, cheirosa e deliciosa que seja a carne…“, completava a designer.
Ana foi para casa pensando em como dizer a Hellena que precisa de um tempo para refletir sobre o que se passou e sobre o que sentiu. Não estava preparada para enfrentar um novo momento como aquele, não sem estar pronta para o que quer que fosse.
No dia seguinte, Ana foi mais cedo para o Universo. Esperou Hellena na porta da escola. Tinha um sorriso gentil e um olhar carinhoso voltado para a professora, que acabara de estacionar o carro. A professora demorou um pouco para sair e, quando o fez, acompanhou um grupo de alunos que se aproximava da escola, conversando de um jeito que parecia bastante sério. Passaram por Ana sem cumprimentá-la, fazendo um muro ao redor de Hellena. A professora sequer lhe dirigiu o olhar. Ana estava certa de que o pedido de desculpas não seria aceito facilmente.

Capítulo 8: Absolutely Scarlet

A designer estava decidia a esperar a professora entrar por sua porta, como sempre, e xingá-la pelo bolo. Talvez não fosse aquele o seu estilo. Hellena parecia o tipo determinada a conseguir o que quer, capaz de entrar porta adentro e fingir que nada havia acontecido, na tentativa de marcar um novo encontro. Mas talvez estivesse realmente aborrecida e à espera de um pedido de desculpas. O que quer que fosse, Ana estava decidida a não procurá-la, até estar certa de que a raiva passou.
Hellena estava furiosa. Num péssimo dia de humor. Lembrou de si mesma chorando à noite por ter desejado tanto o encontro e ter sido enganada tão bobamente. Chorou de raiva. Ao amanhecer, levantou com força, arrancando como se fosse preciso arrastar todo o peso do mundo. Pisou o chão com a mesma firmeza que agora acertava os passos pelos corredores do colégio.
– Preparem-se, porque eu estou com dor de cabeça e a prova de vocês vai ser um inferno – disse alto na sala de aula, ao invés do “bom dia“.
– Eeeei, Hell, tá com o diabo, cedo hoje, hein?! – Troçou um dos alunos.
Mas algumas meninas já faziam um “afffe, Maria!”, imaginando que a ameaça poderia muito bem ser verdadeira, vindo de quem vinha.
– Infelizmente, para vocês, estou magoada. E a única coisa capaz de alegrar meu coração arrasado são as lágrimas de vocês! – disse a professora, agora arrancando urros e gritinhos da turma.
Na verdade, os meninos deixavam sua manhã mais alegre
– Maltratar vocês é uma coisa que me relaxa!
Começavam as gargalhadas e a professora teve que assumir com firmeza o controle da sala para poder adentrar na gramática. Hellena procurava não pensar em Ana, mas, depois de tê-la visto na entrada da escola, imaginou que a outra talvez quisesse pedir desculpas.
“Nãaao!.. na realidade isso é apenas que você quer: que ela peça desculpas e faça cada um de seus caprichos, mas aquela vaca não vai fazer nada disso, Hellena, esquece e desencana“, dizia a si mesma. No intervalo, foi direto para a sala de Rubens. Na concepção da professora, não havia nada melhor para fazer esquecer uma dor do que um choque ainda maior. E se estava ainda sofrendo chateada com o bolo que levou na noite anterior, teria que se concentrar em coisa bem mais importante.
– Rubens eu gosto de outra pessoa.
A frase era chocante e Hellena ainda não acreditava piamente que tinha mesmo dito isso ao namorado, que estava à sua frente, com os olhos esbugalhados como se tivesse levado um murro. O que a professora tinha pretendido era entrar na sala do diretor, marcar um almoço ou um jantar e, ali, dizer aquilo tudo de uma maneira mais sutil. Mas assim que entrou na sala e sentou-se, Hellena percebeu que o modo “sutileza” havia desaparecido de seu menu de opções. Restou-lhe o modo “sincera absoluta, doa a quem doer”. E parece que doeu.
– Como é Hellena? – perguntou o diretor, sem querer acreditar no que estava sendo dito pela namorada.
– Olha, não aconteceu nada! E provavelmente não vai acontecer, mas a verdade é que eu senti. Eu – Hellena procurava as palavras – meio que me apaixonei por outra pessoa e… não tem como eu continuar uma história com você pensando em outro alguém.
– Vocês estão juntos?
– Nãaao! Mas isso não tem nada a ver, Rubens. Eu só tô aqui tentando ser absolutamente sincera com você, porque realmente não quero perder o respeito por tudo o que a gente já viveu. Eu sei que essa é uma forma grotesca de se dizer uma coisa dessas, mas é a verdade, eu tô meio desesperada com isso tudo e não quero guardar e fingir que não existe.
O diretor continuava surpreso sem saber o que responder ou perguntar para a professora. Continuava imóvel e apenas modificara a expressão no rosto, que, da surpresa anterior, passou para uma forma mais séria.
– De verdade, Rubens, a última coisa que eu quero é te magoar. Mas não vale a pena eu mentir sobre uma coisa que está de fato acontecendo na minha vida e com a qual eu simplesmente não sei lidar.
– E quem é ele? – perguntou o rapaz, olhando através de Hellena, sem fixar-se em seus olhos.
– Eu juro a você que isso não vem ao caso.
– Eu quero saber quem é, Hellena – disse ele, agora firmando o olhar nos olhos negros da professora.
Ela podia ver um pouco raiva ali dentro.
– É uma mulher.
A sobrancelha de Rubens ergueu-se e o rapaz parecia duvidar do que estava ouvindo. O diálogo parecia tão surreal que esgotou-se assim como começou: do nada.
– Parecia um daqueles trechos de “O Sentido da vida”, do Monty Python, em que a cena parece banal, mas o diálogo é totalmente absurdo… Uma doideira.
– Travesti maldita, você é incapaz de uma sutileza!!!!… Tô passada com ferro Black and Decker – disse Armando, mostrando-se chocado com o relato da professora – Agora tu virou sapatão total, mesmo, né?
– Oh, bicha, não ofende – respondeu Hellena, sem forças para maiores reclamações – eu precisava desabafar e precisava acertar minha história com ele.
– Começa que sapatão não é ofensa. Sapatão é um termo chulo pra sua condição de adoradora de boceta. E não banca a ofendida, não senhora, porque você é a rainha dos termos chulos… Mas sim, e a bibinha como ficou?
– Ah, beee, não chama o Rubinho de biba. Ele ficou com uma cara de arrasado. Mas um arrasado másculo… olhando para o infinito. No fim ele falou: “sai da sala, Hellena!”, com o tom mais sério que eu já ouvi. Saí na hora.
– Oh, Hell, mas precisava contar tudo numa mesma hora? “Olha viado, conheci outra pessoa, nosso namoro acabou e eu virei sapata!”. Isso é muito forte, amiga!…
– Mas fresco, olha só. Eu já li mil contos sobre isso: a menina termina sem dizer porque, o cara vai atrás insistir pra voltar, porque acha que ela tá aborrecida com alguma coisa. Ou depois, sem saber da verdade, um belo dia o louco flagra a ex-namorada aos beijos com uma gostosa e arma um grande escândalo. Ou então a menina conta com todo jeitinho do mundo e o cara fica pensando que ela tá a fim de um ménage a trois. Eu preferi evitar esse drama todo e contei tudo de uma vez, na bucha. Eu sei que ele não ia fazer nada disso, mas se por um acaso ele cogitasse a possibilidade de fazer uma cena, duvido que faria ali, no Universo – revelou Hellena sobre seus motivos.
– Ah, isso é verdade, porque ele é todo moralistazinho… Mas, enfim gata, quer dizer que depois dessa cagada toda, de todo esse chororô e um namoro terminado, boceta que é bom tu ainda não viu, né?
– Oh, fresco, ver eu não vi, mas eu sei o que eu quero… Aaaaai, aquela puta, foi absurdamente vadia e mentirosa, mas tinha a boca tão macia, beee. Tô apaixonada por ela!
– Mentira, galinha, sério?
– O pior é que eu tô.
– Oooooolha, Hellzinha, apaixonada, quem, diria, hein? Pinta pra sapatão, vá lá que você já tinha mesmo esse porte de atacante de vôlei, ainda mais com namorado biba. Mas apaixonada por aquela criaturinha sem sal… nunca pensei, dona Hell.
– Oh, viaaado! Não fala as sim do Rubinho. Ele é lindinho e é um cara maravilhoso. E a Ana não é sem sal. Ela é muito é gostosa.
– Gostosa onde? Baixinha daquele jeito? Deve alcançar só nos teus peitos, né não? – ria Armando, lembrando da designer, que devia medir, no máximo, 1,60m, ou seja, cerca de 10 centímetros a menos que a professora.
– Ahh, eu abaixo, bee – divertia-se Hellena
– Mas isso não tem nada a ver, porque eu não quero ver a latinha dela tão cedo.
– Hell, a impiedosa! Minha Scarlet O‘hara! Às vezes você até me emociona falando assim… dizia Armando, realmente animado com a capacidade de “reconstrução emocional” da amiga.
– Mas só quero ver até quando isso dura…
– Hummm, só você que sabe ser durão com os bofes, é vampiro Armand? Pois saiba que eu não falo com ela tem três dias – disse a professora, começando a calcular o tempo sem Ana
– Deixa eu ver.. eu dei uma carona na terça… a gente se beijou na quarta e na quarta mesmo ela fodeu com a minha paciência… na quinta ela tava com cara de cu na porta da escola… na sexta despintei totalmente… e hoje é sábado… bóra ferver?!
– Jesus, amado, é mesmo! Tava até esquecida que eu sou fresco, que hoje é sábado e que eu não tenho porra nenhuma a ver com essa tua sapatagem… hahahahahahah!
Os dois riram o resto da noite. Hellena esqueceu-se de Ana. Pelo menos nos momentos em que se divertia com o amigo. Na boate, encontraram Raíssa e a morena aproveitou para jogar muito de seu charme sobre a professora. Na mesma estatura de Hellena, a morena tinha cabelos caindo em cachos como a pequena Shirley Temple. Fazia uma composição bonita com suas roupas modernas e seu jeito sensual de conversar olhando diretamente para os lábios de Hellena. A professora, por sua vez, não conseguia esquecer os grandes olhos castanhos da designer, dos lábios cheios de mistérios e do cheiro enlouquecedor daquela pele alva.
Nenhuma dessas lembranças, entretanto, foi escudo suficiente para proteger os lábios de Hellena da boca convidativa de Raíssa. Com uma dos e a mais de Absolut professora dispensou qualquer escudo e sentiu sua calcinha seriamente molhada quando a morena resolveu massagear sua língua com beijos ritmados.

Capítulo 9: Pulsações
O domingo amanheceu cinzento. Hellena virou-se em sua cama e pensou que ali ao seu lado poderia estar uma morena maravilhosa. Poder ia ter tido uma noite fantástica de sexo, com um exemplar invejável do gênero feminino. Mas, ainda na boate, a professora despertou dos beijos quando sentiu a mão experiente da morena buscando seus seios sobre a blusa. Aquilo foi repentino demais para Hellena.
Ainda divertiu-se com o charme magnético de Raíssa, mas resistiu a várias outras investidas da morena durante a noite. Estava acostumada a elas. Mesmo quando estava com Rubens, Raíssa costumava brincar de sedução com a professora. Aliás, foi o próprio Rubens quem a apresentou à namorada “muito louca” de um amigo seu. Havia dito que a “cidade inteira“ comentava que Raíssa paquerava tanto homens quanto mulheres, sem nenhum preconceito. Imediatamente a professora sentiu-se interessada pela figura exuberante da morena.
Raíssa trabalhava com a mãe em uma floricultura. Encontraram-se outras vezes pela cidade. A morena estava geralmente acompanhada por homens e mulheres atraentes e, sempre que tinha oportunidade, despejava uma cantada canalha e divertida para Hellena – assim como para qualquer outro ser humano que considerasse interessante. Foi assim logo na segunda vez que se encontraram, quando a professora estava ainda se acostumando com o jeito da flor e esta disse divertida, em meio aos cumprimentos e beijos no rosto:
—Humm! O cheiro é bom. O sabor deve ser melhor ainda!
Arrancou gargalhadas de Hellena. A professora gostava de se sentir elogiada, embora tivesse a devida noção de que derramar cantadas e elogios era assim como um vício para a morena. Na última noite, entretanto, poderia ter tido dela mais do que cantadas e beijos, mas a mão nos seios a fez despertar para o desejo que estava sentindo por uma outra mulher, de pele tão clara… “e tão cretina!”.
Mesmo sem ter idéia disso, Ana estragara completamente a diversão de Hellena. Apesar do charme de Raíssa, a professora foi pra casa sozinha e acordou quase ao meio-dia de domingo. Sem namorado, sem tesão pra se divertir e sem a mulher que lhe tirava o sossego, Hellena viu-se, aos 24 anos, na hora de “tomar um rumo na vida”.
Ainda não havia sido realmente feliz. Não se sentia feliz, embora tivesse quase tudo o que precisasse para ser. Não gostou de ter se sentido impedida de realizar um desejo com Raissa simplesmente por ter tido a lembrança de uma pessoa que, obviamente, não tinha por ela o mesmo interesse. A segunda-feira seria diferente, prometia-se a professora. No dia seguinte sairia o resultado da prova da seleção para o mestrado em antropologia, para o qual havia se preparado durante dois meses. Era hora de se concentrar em sua vida profissional, buscar novos horizontes e pôr um ponto final nesse desejo infrutífero pela designer.
—OK! Não dá pra esquecer assim, de uma hora pra outra, mas deve ser como parar de beber. O importante é evitar o primeiro gole. E eu vou evitar ficar pensando naquele toquinho de gente – dizia-se Hellena.
Enquanto isso, uma outra voz dentro dela dizia que, pelo bem de sua auto-estima, deveria insistir em seduzir Ana Maria, a qualquer custo. “Sanidade, Hellena, sanidade! Pense na sua vida e esqueça os percalços da vida. Deixe essa derrota para trás. Você perdeu essa batalha, mas ainda está na guerra…”, insistia o “lado bom” da professora, aconselhando-a a seguir em frente, conforme suas metas de vida.
Embora ainda sentisse um pouco de revolta e um monte de saudades da designer, deixou-se levar pelo pensamento que lhe embalava com o sonho de sucesso na vida acadêmica. Era acalentador e menos dolorido do que pensar naqueles olhos castanhos e dissimulados.

No intervalo da segunda aula, na segunda-feira, Hellena consultou o site da Universidade Federal. O Instituto de Ciências Humanas havia publicado o resultado do edital para a seleção do mestrado em Antropologia. Hellena foi uma dos 20 alunos aprovados. Estava radiante. Nem notou que Ana Maria olhava para ela, quando abraçada Armando, recebia os cumprimentos sinceros do amigo, que havia acompanhado a batalha da professora para estudar toda a bibliografia requerida para a prova de seleção e depois para defender o projeto de pesquisa sobre comunicação urbana perante a banca rigorosa do Instituto. Ela estava radiante.
Rubens também notou os abraços de Hellena e Armando e, pela data, soube que a ex- namorada deveria estar comemorando a tão desejada aprovação no mestrado. Quando Hellena encontrou com o diretor, ele estava frio e, com toda certeza, ainda chateado, mas não demonstrava nenhum tipo de sentimento negativo. Parabenizou-a pela aprovação e foi extremamente polido ao permitir que ela saísse mais cedo para ir à universidade, realizar sua matrícula no curso.
Ao sair da sala dele, Hellena sentiu seu coração diminuir no peito. Gostaria que ele tivesse vibrado com ela, como nos tempos da faculdade. O fato dele ter sido tremendamente educado e o fato dela ter a exata noção de que aquela atitude já era, por si só, uma enorme demonstração de carinho não minimizavam a sensação de ter perdido um grande amigo.
Saiu da sala um pouco mais triste do que quando entrou e, ao passar pelo corredor, cruzou com os olhos de Ana. Achou melhor evitar qualquer contato e apressou-se para chegar à Federal antes do meio-dia.
Ana sentiu a falta de Hellena na sexta-feira. Durante o fim de semana, acho que havia exagerado ao deixá-la esperando. Mas achou que na segunda-feira poderiam retomar o diálogo como antigamente. Sentiu-se extremamente incomodada com o comportamento da professora, evitando-a daquela maneira.
No sábado e domingo, entre os afazeres domésticos, Ana havia se lembrado daquele beijo e das sensações que a pele de Hellena lhe causava. Mas pensava também na forma negativa como a professora reagiu depois de ter lhe deixado esperando, “quando na verdade ela estava forçando um encontro…”.
A designer estava dividida entre o perigo de se envolver com uma pessoa que perde o controle “e é capaz de me beijar à força no local de trabalho” e a tristeza de perder o contato e a amizade com uma pessoa maravilhosa e doce, que conseguia fazê-la sorrir por pequenas bobagens e que “tem os lábios maravilhosos“.
Cada vez que pensava em Hellena, encontrava dentro de si novas desculpas para o comportamento impetuoso da professora. Naquela manhã, venceram as sensações eu Hellena lhe causava: Ana estava decidida a manter a amizade com a professora. Dizia “amizade” para si própria, mas, no fundo do peito, acalentava a esperança de ser novamente beijada pela outra e desejava muito que, dessa vez, pudesse relaxar e se deixar levar pelas sensações que lhe causavam o mais simples toque de dedos de Hellena.
Sempre que cerrava os olhos, Ana cedia ao pensamento de ter sua nuca puxada de encontro ao corpo de Hellena. Na maioria das vezes, a designer achava melhor não pensar nesse tipo de sensação, mas ainda assim, não conseguia evitar sentir um leve frio na barriga ao relembrar do toque de Hellena, a força delicada que possuía nas mãos.
Depois do beijo, lembrou-se Ana, estava encharcada. Por mais que demonstrasse ser racional em relação ao comportamento da professora, o “efeito Hellena“ deixava rastros evidentes em seu corpo. Naquela mesma noite, antes de dormir, percebeu na ponta dos dedos que as lembranças de Hellena intumesciam o pequeno corpo que latejava em seu sexo.
Ana ficou dando voltinhas em torno dele e só conseguiu adormecer depois que, de bruços na cama, rebolou fortemente o quadril contra seu dedo, imaginando como seria maravilhosa a sensação de senti-lo encostar-se, assim rijo e cadenciando espasmos, no corpo de Hellena.
Quando a segunda-feira chegou, Ana arrumou-se para retomar a amizade com a professora. Como Hellena havia evitado o encontro, resolveu procurá-la e foi informada de que havia saído mais cedo. Ana não podia mais adiar. Pediu o número do celular de Hellena na sala dos professores e ligou. Hellena estava na segunda volta pelo estacionamento da Federal quando o telefone começou a tocar. Antes de tender, finalmente avistou um lugar e posicionou seu carro de costas para a vaga, onde pretendia entrar de ré. Antes, para não perder a ligação, resolveu ver quem era.
– Alô.
– Hellena?
– Oi, quem fala? – perguntou a professora estranhando o número desconhecido mas imediatamente reconhecendo aquela voz tímida.
O coração da professora se encheu de esperanças.
– É a Ana… quero falar com você! – disse a designer sem querer prolongar o assunto por telefone.
Ana não sabia muito bem o que dizer para a professora. Hellena teve o ímpeto de xingá-la, mas, na verdade, a voz da designer era como um encantamento, que fazia esquecê-la de todo o mal. Fechou os olhos e visualizou o rosto da outra.
– Pode falar – disse a professora, tentando parecer indiferente, mas completamente envolvida pela voz de Ana.
A designer sabia que aquela não poderia ser uma conversa para se ter ao telefone, então preferiu ser direta.
– Assim não, Hellena. Você não pode me encontrar depois das sete? – arriscou Ana, sabendo o quanto era delicado fazer Hellena lembrar-se do último “encontro”.
A professora respirou fundo do outro lado da linha. Obviamente lembrou-se do bolo anterior e reviveu de novo a raiva por ter sido enganada. Entretanto, a possibilidade de ter Ana tão próxima novamente era simplesmente irresistível, ainda mais com a outra pronunciando seu nome.
– Vai querer me dar outro bolo de novo?  – Hellena perguntou irônica, tentando esconder a incrível vontade de ver a designer imediatamente.
– Oh, Hellena, desculpa. Eu quero me desculpar com você – disse Ana sincera, torcendo com todas as forças para que Hellena reconsiderasse a proposta
– Me pega na saída da produtora?
– E vou ver se dá. Depois te ligo – disse Hellena secamente.
– Tudo bem, eu espero – respondeu Ana, com uma voz que parecia levemente entristecida.
Desligaram. Hellena não conseguia mais segurar o sorriso em seu rosto. Ana Maria, a sua Ana Maria estava querendo sair pra conversar. Impossível não sonhar com as possibilidades daquele encontro. Impossível não lembrar daquele beijo maravilhoso e cheio de promessas que haviam trocado. Hellena não considerava que havia beijado Ana Maria, mas que haviam ambas se entregado ao mesmo beijo.
Não havia como negar: estava louca para encontrar a designer. Entretanto, precisava acalmar-se e evitar ações impulsivas. Já havia se dado muito mal agindo assim, então achou melhor tentar controlar o ímpeto.
Quando finalmente Hellena abriu os olhos viu um carro importado, vermelho estacionado em sua vaga. Buzinou e gesticulou como se perguntasse o que significava aquela invasão. De dentro do carro saiu uma loira magricela, de cara amarrada, que respondeu a ela fazendo um gesto de telefone e balançando negativamente a cabeça.
Claramente, a outra quis dizer que Hellena havia perdido a vaga porque estava conversando ao telefone. “Que vagabunda!”, xingou a professora, arrancando o carro para procurar outra vaga no estacionamento.
Não ia ser uma loira vadia com cara de bruxa que iria fazê-la perder o bom humor. Não depois de estar com um encontro maravilhoso marcado para aquela noite e de estar indo matricular-se no curso que sempre quis fazer.
Tirou todas as fotocópias necessárias; diploma na mão; taxa paga no banco; foi matricular-se. Estava dando um passo significativo em sua carreira. A Antropologia era um sonho antigo para Hellena. Era toda sorrisos. Agora estava efetivamente matriculada. Par a completar sua felicidade, precisava dividir o momento com a mulher que tanto desejava.
Ligou e não fez rodeios. – Ana? Por mim tudo bem. às sete – disse a professora, ainda se esforçando para manter a sobriedade na voz. Do outro lado da linha, Ana desmanchou-se em sorrisos. O jeito de Hellena, mesmo tentando ser dura, era encantador.
– Então tá, te espero! – respondeu Ana sem esconder a felicidade na voz.
A de Hellena, entretanto, custou a sair.
– Então tá. Tchau! – disse a professora, ainda de olhos fechados, com um sorriso plenamente satisfeito no rosto, ouvindo Ana Mar ia dizer “tchau”  com aquela voz séria de Cláudia Abreu.
—Ai, como você é uma gracinha, Ana!“, pensava Hellena mordendo os lábios, amparando as costas na parede do Instituto de Ciências Humanas. Os olhos estavam fechados enquanto curtia o sorriso que a designer fazia brotar em seus lábios. Achava incrível como Ana era capaz de lhe despertar tantos sentimentos.
“Ai, Aninha, às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais“, balbuciava a professora, cantarolado para a designer o resto da poesia de Cazuza: “…teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo que não me deixa em paz! Quais são as cores e as coisas pra te prender?…”.
Quando despertou do arrebatamento deu de cara com a sobrancelha arqueada e o sorriso divertido da loira que havia lhe roubado a vaga no estacionamento. O sorriso de Hellena murchou imediatamente e a professora fez uma cara de aborrecida tão evidente que a outra mulher riu de verdade.
“Cara de bruxa e uma risadinha escrota“, revoltou-se Hellena, olhando a outra com vontade de ir lá perguntar “tô cagada?” A professora sentiu uma onda inflamar dentro de si quando percebeu que, além de sorrir, a outra seguia maneando a cabeça, como quem diz “essa aí pirou!”. E se a mulher não fosse ainda maior que a própria Hellena, ela teria mesmo ido lá tomar satisfação e ameaçar um “vai encarar?”
Hellena era alta, mas refletiu antes de pensar em arrumar encrenca: “o que diabos é isso? 1,78m? 1,80m?”. De qualquer forma, a professora teve um leve ímpeto de xingar aquela mulher idiota e arrogante, mas lembrou-se que … uau! Tinha um encontro esta noite. Retomou o sorriso feliz. …

Capítulo 10: Um dedinho de prosa
Hellena chegou à produtora 15 minutos depois do horário combinado, mas só ela e Deus sabiam o quanto de gasolina havia gastado para fazer hora. Não quis arriscar ficar novamente plantada esperando pela designer. Seria doloroso demais. Quando encostou o carro, Ana já estava esperando. Não reclamou do atraso e tinha um sorriso tímido no rosto.
– Aonde você quer ir? – Perguntou Hellena, assim que Ana entrou no carro.
Não trocaram cumprimentos e a professora tentava prestar mais atenção no trânsito do que na mulher bonita sentada ao seu lado.
– Não sei… Aonde você quer ir? – retrucou Ana Maria, percebendo a impaciência de Hellena.
– Até onde eu lembro, foi você quem me chamou pra conversar, então decide.
– Eu quero ir comer alguma coisa. Tô com fome –  disse Ana, sem querer entrar no clima de encrenca que a outra parecia estar armando.
Pediu para Hellena decidir e ficou quieta, esperando a hora de conversar olhando nos olhos. Hellena escolheu uma temakeria. A professora era adepta da culinária japonesa e adorava levar os amigos para compartilhar os sabores e tradições da cultura oriental. Costumava ser muito atenciosa com os iniciantes, apontando as diferenças entre os pratos e o modo de usar os utensílios. Entretanto, estava sem paciência com Ana.
Hellena sentia uma irritação inexplicável. Era como em sua infância, quando queria alguma coisa e ficava totalmente aborrecida até conseguir. Quando finalmente conseguia, continuava aborrecida, porque havia se empenhado tanto em conseguir que ficava estressada e não curtia a conquista. Ficou pensando nisso, enquanto não diziam nada. Havia ainda um clima pesado entre elas.
Ana não sabia manusear o hashi, optando pelo talher. Também não conseguiu esconder seu desgosto com o salmão cru. Hellena não sentiu vontade de ensiná-la a manusear os pauzinhos e achou graça quando a outra ficou com os olhos lacrimenjando com a wasabi (raiz forte).
Hellena sabia que estava sendo deliberadamente cruel, como se isso a vingasse pelo fato de ter sido enganada, mas não conseguia fazer diferente. Para a surpresa da professora, Ana sorriu quando ela achou graça da cena com o wasabi. A designer olhou pra ela sinceramente feliz.
– Seu sorriso é lindo – disse a designer, olhando o perolado das fileiras imperfeitas de Hellena.
Seus dentes incisos eram levemente maiores que os demais, o que poderia deixar a professora dentuça, mas apenas aumentava seu charme. A professora ficou desarmada com o elogio. “Desgraçada… ela sabe que me derreto quando me olha assim!”
Hellena preferiu agir como se a outra tivesse feito apenas um comentário sobre o tempo “senão eu beijo ela aqui mesmo” e retrucou sem emoção:
– O que você quer comigo, Ana?
– Ser sua amiga – disse a designer em uma resposta foi rápida.
– Tenho certeza que você é inteligente o bastante para saber que eu não quero apenas isso – retrucou a professora.
– Mas é tudo o que podemos ser – respondeu Ana, cortando o coração de Helena.
No fundo a professora esperava que a outra confessasse que também estava atraída. Afinal de contas, o que diabo estavam fazendo ali??
– Não podemos ser mais que isso, mas eu não quero perder sua amizade, Hellena.
– Eu sinceramente achei que você também estivesse interessada em algo mais que amizade – disse Hellena num tom sério, quase de reprovação.
Na verdade, era a hora da cobrança. Afinal, o que significavam aqueles olhares para os seus lábios, aquela mão no meio de suas pernas e aquele “eu sonhei com você?“
– Eu tenho um noivo – respondeu Ana.
“Primeiro que o fato de estar com outra pessoa não tem nada a ver com o fato de você enviar um monte de sinais de interesse. Segundo que eu mesma também tinha um namorado e terceiro… que porra é essa, Ana Maria? Porque não me disse essa merda toda quando eu te falei do Rubens? Por que não me disse isso quando eu te beijei na boca. Por que diabos me deixou pensando que o único empecilho para aquele beijo era o fato de estarmos na escola?”
Hellena olhava seriamente para Ana, pensando em todas essas coisas, mas ficou calada, demonstrando estar surpresa e irritada com a informação. Quando finalmente os pensamentos coerentes foram substituídos por impropérios mentais, a professora resolveu se manifestar.
– Tá OK!… Então vamos mudar de assunto e esquecer isso tudo – disse a Hellena, mais para si mesma do que para a outra mulher.
Estava realmente disposta a se convencer que era hora de organizar sua vida, reavaliar suas prioridades e ir em busca de uma felicidade completa. Hellena vivera anos aquele namoro com Rubens, que apesar de parecer perfeito, deixava nela a sensação de estar incompleta. Era um namoro em que lhe faltava algo fundamental para ser feliz. Sempre que o rapaz que lhe chamava de “ mô”, intimamente, a mulher sentia um incômodo, como se “amor” não fosse o termo adequado para chamá-la.
Na verdade, sentia-se muito mais amiga do que amante. E cada vez que alguém dizia que a relação deles era linda e que faziam um par perfeito, ela se sentia deslocada e infeliz dentro de sua própria vida e tentava mascarar isso querendo uma relação discreta. Hellena não suportava mais sentir-se errada. Queria ser feliz e, naquele exato momento, estava certa de que sua felicidade não estava ao lado de um homem maravilhoso como Rubens, nem ao lado de uma mulher que demonstrava uma coisa e dizia outra, como Ana.
Virou o copo inteiro de cerveja à sua frente e tentou de fato esquecer o assunto. Ana ficou sem reação. Apesar de ter dito a verdade sobre o fato de estar noiva, não esperava que a outra desistisse tão facilmente de continuar os beijos interrompidos. Olhou Hellena beber e sentiu que a mulher estava sendo sincera quando disse “vamos esquecer o assunto“. Ana também bebeu. Jantaram tranquilamente, como amigas, e descobriram coisas uma da outra.

Capítulo 11: Diferenças
Assim como Hellena, Ana tinha 24 anos. Morava com a mãe, uma costureira, viúva. Tinha dois irmãos adolescentes e começou a trabalhar muito cedo para ajudar a mãe. Estudou publicidade, mas queria ter feito engenharia da computação. Gostava de música romântica, era fã da Ivete Sangalo e Ana Carolina, assistia novela e lia Paulo Coelho. Sua programação cultural mais comum era cinema e pizzaria. Tinha exatamente o perfil que, se apenas ouvisse a descrição, Hellena taxaria: brega. Recentemente, havia ficado noiva do diretor-comercial da agência onde trabalhava.
Hellena morava com os pais e era apaixonada por seus dois sobrinhos, filhos de sua irmã mais velha. Começou a dar aulas ainda na faculdade de Letras. Pensou em fazer jornalismo, mas gostou do curso e logo se destacou na turma. Agora estava prestes a se realizar no mestrado. Preferia internet ao invés da TV, lia Saramargo e Garcia Marques, gostava de gibis,Tarantino e do Cazuza. Estava encantada com o show acústico da Cássia Eller e sua idéia de diversão era fim de tarde num boteco, ferveção na boate e raiar o dia com a barraca de camping armada em algum canto, sem nunca perder o embalo. Enfim, o perfil exato que Ana costumava chamar de “meio doida”.
Quase duas horas depois, as duas estavam relaxadas, falando alto e… se comendo com os olhos. Helena começou a pensar se não estaria de novo deixando sua vontade falar mais alto que sua noção das coisas. Mas apenas começou a pensar, porque, apesar de tudo o que havia sido dito, das descobertas e de todas as resoluções que tentavam fazer, as duas estavam fisicamente encantadas com a presença uma da outra.
Continuaram a conversa com o álcool servindo como combustível para os torpedos que voavam entre olhares, de um sorriso ao outro. Quase onze e meia da noite, Ana despertou daquele clima de sorrisos e olhares e preocupou-se em ir pra casa. A designer morava longe do centro. Levar Ana em casa significaria para Hellena um retorno pra casa, dirigindo sozinha, por quase uma hora. Deixá-la ir sozinha ser ia entregar aos lobos da noite uma mulher bonita e meio embriagada. Hellena tentou ser a mais sincera e racional possível.
– Olha, eu levaria você em casa se estivesse em condições de encarar esses 30 quilômetros de trânsito. Mas eu não estou e a minha casa fica a uns dois quilômetros daqui. Então acho melhor você dormir lá – disse a professora.
E, antes que Ana tivesse a péssima idéia de achar que haviam segundas intenções no convite, completou:
– A gente tem um quarto de hóspede e você não precisa enfrentar nenhum perigo pra chegar na sua casa.
Ana não havia pensado nessa possibilidade. Na verdade, até então, não sabia muito sobre a vida de Hellena. Havia cogitado a possibilidade da professora morar com o namorado. Mas Ana não estava e condições de refletir muito sobre as possíveis implicações de passar a noite na casa de Hellena. Além disso, a outra parecia estar sendo apenas atenciosa.
– Tudo bem. Vou ligar pra minha mãe avisando – respondeu a designer.
Hellena esboçava um sorrisinho feliz. Saíram do bar com pressa. Hellena estava feliz com a idéia de Ana dormir em sua casa. Para a professora, aquele poderia ser o começo de uma amizade, mas abria também um leque de oportunidades e uma delas poderia ser um “algo mais” com a designer. “Já está de novo pensando nisso, Hellena!“, recriminava-se a professora tentando afastar de sua mente as idéias que envolviam partes do corpo de Ana.
Hellena esforçava-se, mas a presença de Ana no carro atrapalhava seus planos de seriedade. Deixando-se novamente dominar pelo impulso, a professora parou o carro em uma rua pouco movimentada e ficou olhando para uma Ana espantada e curiosa.
– Acho que você ainda me deve desculpas – disse Hellena.
– Por que? – perguntou a designer, sentindo claramente que a professora havia mudado de idéia quanto ao “vamos mudar de assunto”.
– Por ter me feito de idiota.
– Desculpa.
– Só isso? – disse Hellena, com as sobrancelhas arqueadas revelando péssimas intenções.
– Que mais você quer? – retrucou Ana, notando a professora desabotoar o cinto de segurança.
Hellena olhou para os olhos de Ana e não viu medo ali dentro. Não saberia dizer se havia desejo, mas também não se preocupou com isso. Medo ou qualquer forma de repulsa teriam feito a professora parar, mas não foi isso o que ela enxergou. Então, sem pensar nas conseqüências, Hellena esticou os braços e soltou Ana do sinto.
– O que cê tá fazendo, Hellena – sussurrou a designer, sentindo os braços de Hellena envolvendo seu corpo.
Ana estava esperando por um beijo, mas foi simplesmente puxada para o colo da professora. Não ofereceu resistência. Hellena não pensava em nada além dos substantivos que sua mente produzia para classificar aquele par de lábios ali tão próximos. “Lindos, atraentes, entreabertos, molhados, macios, carnudos, deliciosos…“.
Admirada com a beleza da outra, Hellena aspirou o perfume amadeirado de Ana e passou deliberadamente a mão nas pernas da designer, subindo pelas coxas até a lateral da cintura. Ana pensou em reclamar, mas o cheiro adocicado e a respiração ofegante de Hellena minavam qualquer resistência. Estava tão dominada pelo desejo quanto a outra mulher.
Pela falta de reação de Ana, quando a puxou para o seu colo, Hellena esperava ganhar um beijo tímido, um roçar de lábios. Apesar do ímpeto, a professora queria apenas matar sua vontade incontrolável de encostar novamente sua boca naqueles lábios adorados e poder ficar alguns segundos abraçada ao corpo de Ana Maria, tentando acalmar desse jeito os murros que seu coração dava no peito.
Entretanto, quando os lábios de Ana encostaram nos seus, foi Hellena quem se espantou com a língua serpenteando ágil pelos caminhos de sua boca. Reação imediata à língua lhe penetrando, Hellena sentiu imediatamente sua calcinha encharcar com a emoção líquida que seu corpo vertia ao toque de Ana.
Pela calma com que agiu até ali, nem Hellena havia percebido o quanto seu corpo estava excitado com aquele encontro. Mas a entrada da língua em sua boca lhe dava a clara sensação de ter chegado ao êxtase, evidenciando todo o poder que a designer exercia sobre seu corpo. Quando a língua de Ana a dominou, o sexo da professora convulsionou em pequenas pulsações molhadas. Apertando Ana em seu colo, Hellena sugou a língua desejada como se precisasse daquela sensação para continuar respirando.
Ana gemeu sentindo a fome com a qual Hellena tentava engolir aquele pedaço de seu corpo. Quando ouviu a outra gemendo, as mãos de Hellena se descontrolaram e, sem que a professora planejasse, ganharam vida e vontade próprias. Enquanto a esquerda controlava a intensidade do beijo, massageando as costas de Ana sob a roupa, a direita enlouquecia procurando um espaço entre os corpos.
Finalmente, a mão direita venceu as dificuldades de acesso até o seio de Ana. Ao sentir o toque, a designer enrijeceu a língua ainda mais dentro de Hellena e sentiu seu coração indo pulsar no meio das pernas. Aos poucos, Ana recolheu a língua, vencida e entregue, sentindo o polegar de Hellena dar voltinhas sobre o bico de seu seio, por baixo da blusa. Contorceu-se quando a mão inteira espalmou-se sobre o seio e começou uma massagem sensual.
Quando sentiu a rigidez da mama, Hellena mergulhou a língua com urgência na boca de Ana. A designer retribuiu o carinho na mesma intensidade, sorvendo o gosto que a outra boca lhe oferecia. Ana não sabia onde pôr as mãos, então prendeu com elas o rosto de Hellena, ajudando a manter os lábios juntos por mais tempo. Ana movia seu corpo ansiosa sobre o colo de Hellena.
A designer sentia o quanto estava excitada e que as pulsações entre as pernas eram o mais puro desejo de ser tocada ali. Queria muito sentir os dedos de Hellena. Pausaram o beijo para respirar e a professora lembrou-se que estavam numa rua deserta.
– Vamos pra casa – disse Hellena com a voz sussurrada, acordando Ana do exercício de respiração profunda.
Estava ainda colada em sua boca. A designer não usou palavras pra concordar, mas apenas um “Hmm! Hmm!”, enquanto tentava voltar sobriamente para o seu banco. Antes da outra abandonar seu colo, Hellena deu ainda um beijinho no rosto de Ana, já sentindo falta daquele contato. O caminho era curto e foi feito sem que trocassem qualquer palavra entre si.
Quando chegaram à casa de Hellena, tentaram não fazer barulho, pois os pais da professora já estavam dormindo. Como havia prometido, Hellena levou Ana para o quarto de hóspede, ofereceu uma camisola, o banheiro e esperou que a designer ficasse à vontade. Ana ligou para a mãe e se preparou para dormir. Deitou-se e logo sentiu a falta de Hellena.
Enquanto também se trocava, Hellena ficou refletindo se deveria manter sua palavra de que Ana apenas dormiria em sua casa ou se deveria ir lá tentar mais uma investida. Poderia ficar com a lembrança de um beijo maravilhoso num primeiro encontro ou tentar ir além disso naquela mesma noite. Pensou nas vantagens de ir lá apenas para dar um beijo de boa noite, sem parecer insistente ou desesperada.
Mas e se Ana quisesse algo mais? Hellena não sabia exatamente como deveria reagir se a outra quisesse. Apesar dos filmes e dos livros, nunca havia realmente estado com uma mulher antes.
Nua no banheiro, Hellena olhou para seus pêlos bem aparados e pensou o que Ana acharia deles. “Melhor não pensar nisso”. Escovou os dentes, cheirou o próprio hálito e passou a mão nas pernas para confirmar se estava bem depilada. Pelo sim pelo não, vestiu a calcinha mais bonita que encontrou na gaveta e foi ver como estava a designer.
Quando chegou ao outro quarto, encontrou Ana deitada na cama de solteiro de sua irmã.
– Tá tudo bem aí? – perguntou Hellena enfiando apenas a cabeça para dentro o quarto.
– Tudo bem – respondeu a designer afastando-se para a parede, deixando um espaço vazio na cama.
O gesto não passou despercebido por Hellena, que entrou no cômodo e foi sentar-se ao lado de Ana. Por alguns segundo, as duas conversaram baixinho, sobre a ligação para a mãe de Ana, sobre as roupas de dormir e sobre onde estariam os pais de Hellena.
A professora explicou que dormiria em seu quarto porque, para os seus pais, não faria sentido dormir com Ana no quarto de hóspede, onde havia só uma cama de solteiro e nem faria sentido, havendo aquele quarto, Ana passar a noite no quarto de Hellena, onde também havia uma única cama de solteiro. Por causa disso, Hellena informou que havia vindo “só pra dar boa noite”. Ana concordou com o que a professora dizia, maneando a cabeça.
Quando veio o silêncio, ficou olhando Hellena, tão linda, de camiseta e shortinho. Ana olhava os ombros largos e a penugem clara dos braços da outra. Estava esperando a despedida, que não veio. Quando Hellena abaixou-se para beijar o rosto de Ana, sentiu sua boca inconformada com o final daquele contato e seguindo por uma interminável sessão de beijinhos até a base do pescoço tão alvo da designer.

Interrompendo a trilha de beijos, Hellena olhou para Ana, que estava com os olhos fechados. A professora não resistiu e beijou suavemente a boca semi-aberta que a outra lhe oferecia. Com o ímpeto do beijo, em poucos segundo a professora estava deitada sobre a designer. O beijo aconteceu apaixonado e cheio de volúpia, deixando claras as intenções de ambas.
Apesar de quase perder a respiração, Hellena conseguia controlar a língua numa expedição alucinada à boca de Ana. Ana recebia Hellena com as pernas levemente abertas. A designer estava embaraçada com aquela situação de desejo intenso por outra mulher, mas não conseguia dominar seu corpo. Á medida que o beijo ia se aprofundando, o seu quadril se movia de encontro ao sexo de Hellena. Em meio ao movimento, a designer sentia seu clitóris enrijecer-se ferozmente contra o corpo da professora. Sobre Ana, Hellena movia as mãos excitadas pelo corpo da outra. Foi encontrar alívio esfregando o bico dos seios da designer, sobre a camisola. As duas ainda estavam vestidas, esfregando-se com sofreguidão no sexo uma na outra quando um barulho de porta interrompeu o beijo de língua.

Capítulo 12: Depois daquele beijo!
Muito tempo depois, deitada na cama, vendo Ana surgir do banheiro, enrolada na toalha, Hellena pensaria ter um déjà vu da primeira vez em que viu a designer nua, num motel barato, logo após aquele primeiro grande beijo, no carro. Nada mais que uma lembrança, pois a expressão de Ana, recém saída do banho, seria de aborrecimento por ter sido enganada pela professora. Hellena iria estar ciente que para estar ali com Ana, sendo eufemista, havia sido pouco correta.
Mas a professora iria justificar-se nas vezes em que se sentiu traída em seu amor pela professora. Entretanto, para entender tudo isso, é preciso recuar um pouco mais nas lembranças e voltar ainda ao tempo em que Hellena acreditava que viveriam um grande amor depois daquela quase entrega, daquele primeiro beijo compartilhado. Para entender, é preciso saber que, para Ana, as coisas não eram bem assim.
Depois que Hellena saiu do quarto de hóspedes, deixando a designer molhada de vontade, Ana quase não acreditou que dormiria sozinha. Esperava que a professora desse alguma desculpa à mãe e voltasse ao quarto para retomar os beijos e as carícias. Hellena era sim uma mulher excitante, não havia como negar. Quando surgiu para dizer boa noite, limpa, perfumada e com um brilho feliz nos olhos, a professora poderia ter facilmente lhe tomado muito mais do que alguns beijos.
Alojada entre os braços e pernas de Hellena, a designer sentiu-se excitada como não se lembrava de um dia haver estado antes. A pele macia, o toque suave e a voz baixa de Hellena deixavam Ana hipnotizada. A professora poderia ter falado sobre o tempo, sobre os absurdos do mundo, poderia ter conjugado verbos em latim em seus ouvidos e Ana acharia que eram as palavras mais lindas do mundo.
Quando Hellena deitou-se sobre ela, Ana estava ciente de que seu quadril havia ganhado vida própria e implorava pelo contato com o corpo da professora. Ana roçava-se deliberadamente no sexo de Hellena quando foram quase surpreendidas pela mãe da professora.
Quando a outra foi embora do quarto, ficou com um vazio entre as pernas. Um vazio que foi se transformando em vergonha, por desejar outra mulher daquela maneira indecente; frustração, por não conseguir satisfazer as vontades de seu corpo; e raiva, por Hellena não ter sequer tentado ficar mais um pouco.
“Oi, mãe. Esta é minha amiga Ana Maria… ela vai passar a noite com a gente”, disse a professora sem a menor convicção à senhora muito branca e alta que segurava a porta do quarto com um sorriso divertido no rosto. A mãe de Hellena cumprimentou a visitante com uma expressão de quem presenciava uma travessura e perguntou se estava tudo em ordem.
Divertiu-se mais ainda com o balançar de cabeça nervoso da visitante e sumiu pelo corredor. Ana estava lívida com o quase flagrante e não disse nenhuma palavra depois que Hellena estalou um selinho em seus lábios e disse “boa noite!”
“Como assim boa noite?”, pensou a designer, sentindo-se um tanto rejeitada e um pouco “brinquedinho” de Hellena. Ficou longos minutos esperando o retorno de Hellena, ainda com um desejo que foi se transformando em raiva. Dormiu mal e levantou antes que a outra acordasse.
Para Hellena, aquela deveria ser uma manhã feliz. A professora acordou achando ter uma namorada no quarto de hóspedes. Para ela, havia feito a coisa certa não avançando o sinal no primeiro encontro e respeitando os limites da designer. Arrumou-se com urgência e, já tomada banho, correu para o quarto onde havia deixado a mulher que lhe atiçava os desejos. Nada.
As coisas nem de longe ocorreram como ela esperava. Hellena procurou Ana Maria pelo Universo e soube que esta ainda não havia chegado. A designer chegou tarde, porque foi em casa trocar de roupa, e passou a manhã evitando a professora, trabalhando na sala do diretor ou se cercando de outras pessoas para não ficar à sós com Hellena.

O suplício durou até a hora da saída, quando (golpe baixo!), Ana chamou o namorado para ir buscá-la na porta da escola. Quando a professora aproximou-se para falar com ela, a designer apontou para o carro com o homem lá dentro. A professora entendeu de imediato a intenção “não fale comigo” e ficou tão decepcionada que não fez qualquer tentativa de reagir.
A semana passou com Hellena irritada. Nos primeiros dias, depois da decepção, a professora evitou encontrar-se com Ana. A outra fez o mesmo. Depois, passada a raiva maior, Hellena deixou-se levar pelos corredores. Não entrava na sala da designer, mas não desviava do corredor em que a outra estava. Cumprimentavam-se sem agressões, mas não passavam disso.
– Uma coisa é certa: eu não vou conseguir nada dando um gelo nela. E outra coisa é ainda mais certa: eu não tenho certeza se quero ficar sem conseguir nada – disse Hellena, encerrando de uma vez o meio copo de chopp gelado que encerrava seu fim de tarde.
– Ah, mas se é assim, eu também preciso dizer duas coisas: primeiro que essa baixinha não combina com você e segundo que lá vem a sua chance de tirar o atraso – disse Aramando, que olhava fixamente para o sorriso hipnótico de Raíssa.
– Ooooooi! – Disse a morena, sentando na mesa sem esperar convite.
Hellena, que andava aborrecida, pareceu ter recebido um raio de luz em seu dia cinzento (“uma raio de luz… que coisa mais de viado!”). A professora sorriu de volta para a amiga – com uma alegria sincera – e Armando pediu uma nova rodada de chopp.
Aos 22 anos, Raíssa era mesmo um belo exemplar do sexo feminino. Nos últimos tempos era vista sempre aos beijos com garotas, mas dizia sempre “ainda não fechei a conta”, quando questionada sobre a possibilidade de ainda ter relacionamentos com homens. Como era de costume, a florista avançava animadamente sobre seu alvo com um repertório de cantadas canalhas e divertidas.
Riam, contavam piadas, falavam mal dos transeuntes e, sempre que possível, Raíssa dava um jeito de encostar a mão ou as pernas na professora.
– Será que sua mãe está em casa agora? – perguntou Raíssa fazendo uma voz muito baixa e rouca no ouvido de Hellena.
A professora, que já andava com os nervos à flor da pele, reagiu na hora, com um forte arrepio na nuca.
–  Eu acho que está…. por quê? – respondeu Hellena, com a voz meio trêmula.
– Porque eu quero agradecer a ela por esse material maravilhoso que ela fez – disse Raíssa, arrancando gargalhadas da professora e quebrando, com isso o clima de sedução.
Hellena poderia ter ficado chateada por “perder o embalo” daquele jeito, mas sentiu-se feliz por estar rindo de maneira tão descontraída.
– Raíssa, não perde a chance, hein? – disse uma voz por trás das duas.
Era Ana Cristina, uma veterinária com quem a florista havia passado bons momentos a alguns dias atrás.
– Oi, Aninha, tava aqui comentando como eu ando triste com a sua ausência – a frase, totalmente mentirosa, fez a alegria das três.
– Professora Hellena Vargas, esta é a doutora Ana Cristina Prado.
– Olá! – disseram as duas em uníssono, com um sorriso agradável no rosto de ambas.
– Tô perdendo alguma coisa? – disse Armando de volta à mesa.
– Não muita coisa, só o início de uma história de amor – respondeu Raíssa, atentando para a maneira como Hellena e Cristina olhavam uma para a outra.
Capítulo 13: O tempo passa, o tempo voa
– Posso te chamar Cris? – perguntou Hellena ganhando o consentimento da veterinária.
Depois de muito chopp, gargalhadas e uma esticada a um bar dançante, a professora resolveu deixar o carro num estacionamento privado e ir para casa de carona, com Ana Cristina, que havia bebido muito menos. Raíssa e Armando continuavam jogados na pista de dança quando as duas jogaram beijos de despedidas e saíram juntas.
A veterinária também dava aulas. Era professora assistente na universidade e tinha uma pequena clínica e pet-shop que dividia com o pai. Branca, musculosa, com o cabelo cor de mel, muito liso, cortado em estilo channel, Ana Cristina tinha 27 anos e um sorriso perfeito. Os olhos, também cor de mel, denunciavam uma inquietação em sua alma. Parecia ter tudo o que precisava na vida e, ainda assim, não parecia realmente feliz. Apesar de mais reservada e muito mais séria, tinha muito em comum com Hellena, a iniciar pelo fato de que ambas gostavam de mulheres.
– Você tem namorada? – perguntou Hellena de sopetão, já na porta de casa.
– Eu gosto de alguém… – respondeu Ana Cristina.
– Eu também… – retrucou a professora, lamentando quase para si mesma – …É uma merda, não é?
– É uma merda completa – disse a outra.
– É um amor complicado? – continuou interrogando.
– Quase impossível – respondeu Ana Cristina depois de um suspiro profundo.
– Puta que pariu… vou me jogar pra dentro de casa antes que eu comece a chorar – disse a professora, dando um beijo no rosto delicado da veterinária, de um jeito demorado e muito próximo à boca
– Mas isso quer dizer que eu não posso te convidar pra… sair um dia? – disse Hellena, muito perto de perder o bom senso.
– Isso quer dizer que você pode me convidar quando quiser – respondeu a veterinária, pegando no porta-luvas do carro um cartão-de-visita e entregando na mão de Hellena
– Quando quiser! – disse mais uma vez, fazendo Hellena sorrir.
Antes de dormir, a professora ainda se perguntou algumas vezes por que mesmo não havia beijado a veterinária e sorriu ao lembrar seu nome: Ana. Hellena não havia pensado em Ana Maria durante todo o tempo em que se divertiu com Armando, Raíssa e Ana Cristina.
Achou que aquilo era um sinal claro de que deveria dar uma chance a outro relacionamento. Qualquer outro relacionamento. Especialmente um que envolvesse beijos e sexo ardente.
O fim do semestre se aproximava. Hellena não teve tempo para pensar em seus dramas amorosos, nem mesmo para ficar vendo Ana passar no corredor. Corrigia provas e se preparava para a festa de São João do Universo. Ela e Armando eram apresentadores do “Miss Caipira” e de outras atrações da festa e, como em anos anteriores, ficavam envolvidos na preparação do evento.
Em seu coração, Ana ainda era um peso, mas procurava evitar conversas. A designer, por outro lado, estava apreensiva. O rompimento da amizade com Hellena foi um ato impensado. Sabia que havia magoado a professora, que estava sendo sincera com ela. Sabia que havia provocado desejo e renunciado. Tentou seguir seus dias com a calma de sempre, mas sua vida amorosa com César era menos do que satisfatória.

O tempo corria, mas não conseguia esquecer de fato os beijos que trocara com Hellena. Ainda não havia dito a outra, mas seu contrato estava terminando com o Universo, pois o site estava concluído e já em fase de testes. Rubens Salgado havia solicitado à designer que seu trabalho estivesse definitivamente concluído na festa junina, quando anunciaria oficialmente à comunidade estudantil que o Portal Universo estava aberto e oferecendo serviços aos alunos, pais e professores. Ana entregou as senhas ao diretor no dia anterior à festa e disse que faria tudo para estar lá, quando Rubens a convidou para participar do evento.
Ana, de fato, não gostava de festas, nem de multidões. Mas aquela era uma boa chance de despedir-se de Hellena e, quem sabe, voltar a trocar alguns beijos com a professora. Ana tinha plena consciência de que jogava um jogo perigoso com a professora e, sabendo quem é Hellena, sabia que poderia ela mesma sair machucada desse jogo. Ainda assim, a vontade de ver brilhando aqueles dentes brancos próximos à sua boca e de ouvir baixinho a voz poderosa da professora era uma tentação a qual não saberia resistir.

Capítulo 14: Muito quentão e um mundo bizarro
Hellena estava linda no palco da festa. Pelo menos era o que Ana achava da professora, que estava com o rosto brilhando suor, com uma roupa que parecia muito mais de cowgirl do que de caipira. “Jeans e camisa xadrez é tão gay…!”, disse Armando admirando a amiga antes de subirem ao centro das atenções.
Ana havia acabo de chegar e ainda não havia sido percebida pela professora. Os dois faziam piadas a respeito das concorrentes. Ana estava um tanto deslocada na festa. Não quis a companhia do namorado, pois pretendia conversar com Hellena,dizer a ela que estava saindo da escola e, quem sabe, conseguir recuperar um pouca da atenção da outra.
Durante a última semana, Hellena não demonstrava nenhum interesse pela designer e parecia estar focada em outros interesses. E estava mesmo. Ela havia convidado a veterinária para participar do “Bailão no Universo” e aguardava ansiosa pela visita.
– Adorei a calça de veludo, adorei a trancinha, adorei a postura, só não adorei o bofe do lado – falou Armando no ouvido de Hellena, olhando para a porta de entrada da festa. A professora sentiu uma sensação de impacto e revolta, que só podia ser um mau pressentimento. Reconheceu a mulher altíssima ao lado de Rubens e Marco: era a desagradável que roubou sua vaga no estacionamento da universidade.
– Oh, viado, essa mulher é horrorosa – respondeu Hellena num impulso de raiva.
– Amiga, esquece esse cursinho de sapata que tu fez, porque tá tudo errado. Essa mulher é bonita e elegante – insistiu o amigo.
Hellena estava com uma cara amarrada quando percebeu sobre si os olhos de Ana. A designer percebia que os dois comentavam a entrada da loira sorridente que entrou na festa com o diretor da escola e Marco Antônio. Além de amigo do diretor, o advogado era também amigo de César e, embora não fosse um ser humano muito agradável, Ana costumava tratá-lo bem.
– Ai, Deus, a baixota que roubou teu coração está olhando pra cá… e acho que está se dirigindo para a sua pessoa – disse Armando, apenas confirmando a Hellena a movimentação que ela já havia notado
– E eu vou aproveitar pra pegar pelo menos um quentão, porque esses teus assuntinhos de mulher são demais pra minha cabeça.
Armando cumprimentou Ana com um aceno de cabeça e deixou as duas sozinhas. Cumprimentaram-se. Hellena estava incomodada com a falta de assunto entre elas. Falaram trivialidades e a professora sentiu voltar em si a enorme atração que sentia pela designer. Impossível não desejar passar a mão naquele rosto lindo e não se perder naqueles enormes olhos castanhos, tão claros, tão… mentirosos!
A professora conteve os pensamentos. Via o olhar inquiridor de Ana. A outra parecia querer dizer alguma coisa, ou perguntar alguma coisa. Mas, como sempre, não dizia nada, preferia que Hellena tomasse a dianteira nos assuntos. Hellena Não queria cair de novo nos joguinhos de Ana e foi firme em manter entre elas um silêncio constrangedor. A designer não resistiu:
– Você está com raiva de mim, Hellena.
– Eu teria algum motivo pra estar – respondeu a professora, tentando fazer a outra falar.
– Não sei. Tem?
– Não sei, foi você quem perguntou. Tenho? – disse Hellena, sem deixar transparecer qualquer reação.
Ana sorriu e, nossa, como era lindo aquele sorriso perfeito. Ana abaixou a cabeça e disse evitando o olhar ainda gelado da professora:
– Eu acho que você está me evitando.
– Eu tenho certeza que foi você quem me evitou primeiro. Eu só segui o mesmo estilo – respondeu Hellena tentando esconder a mágoa.
Ainda estava muito puta da vida com aquela mulher, mas, ao mesmo tempo, a proximidade com Ana fazia a professora viajar por uma calma excitante.
– Eu precisei de um tempo… as coisas estavam ficando muito… – Ana não achou as palavras e já começava a arrepender-se de ter entrado no assunto, quando sentiu os olhos de Hellena buscando os seus.
– … muito…? – perguntou Hellena, arqueando a sobrancelha.
– … quentes! – Ana enrubesceu.
Hellena sorriu satisfeita. As duas se encararam e não disseram mais nada. Hellena não fez qualquer esforço para esconder que estava encarando a designer e, apesar de ser exatamente quem era, Ana também estava gostando da proximidade, do olhar e do jeito de Hellena. Achou que a professora estava um tanto mais comedida e que isso a deixava ainda mais charmosa. Ou poderia ser apenas uma saudade enorme da professora.
– Hell, amor, showtime! – gritou Armando quebrando o encanto entre as duas.
Os professores voltaram à apresentação das atrações da festa e de lá de cima, Hellena sorriu para a veterinária, que acabara de entrar, ao lado de Raíssa. As duas pareciam animadas e Ana Cristina pareceu surpresa – e feliz –ao reconhecer Hellena no palco.
Quando desceu de lá, cumprimentaram-se com beijinhos. Os de Hellena e Ana Cristina muito próximos à boca. Uma banda animou a noite com um forrock e as doses de quentão animavam a conversa.
Hellena foi chamada por alguns alunos para fazer fotos “pro Orkut” e, como é de se esperar, demorou um pouco mais do que desejava. Quando voltou, teve a impressão de que havia bebido mais quentão do que deveria. Viu numa mesma roda, Armando às gargalhadas com a loira desagradável, que estava de mãos dadas com Ana Cristina; Raíssa conversando ao lado de Rubinho; e Ana, a sua Ana, com Marco Antônio, por quem professora não nutria qualquer simpatia.
Aturava o advogado quando era a namorada do diretor do Universo, mas nunca achou que fosse uma companhia agradável. Hellena achou o mundo um tanto bizarro vendo aquela cena. Uma conspiração do universo contra a sua alegria. Colocou a culpa no quentão e apelou para uma latinha de cerveja.
– Hell, você precisa ouvir essa história da Cris. Quase apanhou do flanelinha lá fora – disse Armando e a turma animada ria da história que já havia sido contada pela veterinária.
Hellena procurou esboçar um sorriso, mas estava estranhando demais a situação para obter sucesso. Cristina repetiu resumidamente a história em que recomendou “cuidado” ao flanelinha e o mesmo retrucou “eu sei do meu trabalho”, o que deu início a uma discussão aparentemente muito engraçada.
Hellena, contudo, não estava achando graça da situação, mas tentou opinar. – Esses filhos da puta pensam que são os donos da rua – disse a professora.
– Se a gente for considerar que a rua também não é um estacionamento privado, os filhos da puta podem ser os motoristas – disse loira desagradável, parecendo tirar um sarro com a cara de Hellena.
Pelo menos foi isso o que a professora achou quando aquele varapau se dirigiu a ela com essa conversa.

– Então você acha que eles têm o direito de extorquir quem quer estacionar? – perguntou Hellena, claramente irritada.
Ana observava um pouco afastada, mas notou a crescente irritação da professora.
– Eu só acho que a rua é de todos. E se uns têm o direito do conforto ao carro, outros têm o direito de obter algum tipo de renda – respondeu a mulher altíssima.
– Ah não é muita babaquice para os meus ouvidos! – respondeu Hellena, perdendo completamente a compostura, virando de costas e indo em direção ao bar.
A atitude da professora quebrou o clima de descontração. Desde que Hellena aproximou-se, Ana não deu mais ouvidos à conversa de Marco Antônio, o que não passou despercebido pelo advogado. A designer teve o impulso de correr atrás da professora e já estava preparando uma desculpa ao amigo quando percebeu que Ana Cristina havia se movimentado em direção a outra. Ana ficou olhando de longe quando Cris e Hellena conversavam no bar.
– Ei, tá tudo bem com você? – perguntou a veterinária.
– Tá, ótimo – disse Hellena ironicamente.
A outra não aprovou a ironia.
– Escuta, se a companhia não agrada, é só dizer, tá bom?
– Eu aviso – respondeu Hellena, insistindo na ironia.
– Olha, eu não sei se te fiz alguma coisa, mas acho que cheguei num dia péssimo pra você, não é?
– Não, o dia até que estava bom – respondeu Hellena, sem pensar.
– Bom, se estava e ficou ruim comigo por perto, desculpa então.
Ana Cristina não gostava de joguinhos. Virou as costas e voltou ao grupo. Hellena arrependeu-se imediatamente da conversa idiota. Arrependeu-se por ter chateado a veterinária, por ter deixado o grupo, por ter sido babaca e, enfim, ter deixado para trás tanto a mulher de quem gostava quanto a mulher por quem estava nitidamente interessada.
E tudo por culpa daquela mulher gigante e babaca, com suas opiniões esquerdistas. O que diabos era ela, uma socióloga adepta do marxismo? E porque diabos Hellena estava gastando seu tempo pensando naquela mulher horrorosa? Hellena foi beber com um grupo de alunos.
– Péssimo exemplo, professora – Ana falou baixinho ao seu ouvido.
Hellena estava bêbada ou a designer estava sussurrando uma voz deliciosa e muito mais colada à sua orelha do que deveria? A dúvida ficou zoando na mente de Hellena, que respondeu:
– Tá falando de que?
– De beber com alunos.
– Aaaaah, tá. Acontece – Hellena pensou que a designer estava se referindo à conversa com a loira desconjuntada ou à conversa babaca que teve com Ana Cristina.
Caiu em si e percebeu-se de que a Ana não poderia saber da conversa com a Ana veterinária. Eram muitas Anas para uma só Hellena. E começava a lhe faltar sobriedade.
– Bom, meninos, este mau exemplo ambulante está indo – afirmou Hellena, arrancando as reclamações dos alunos, que se divertiam com as bobagens da professora.
– Então, tchau, né? – disse olhando nos olhos de Ana Maria.
– Posso ir com você? – perguntou a designer, gelando o estômago da professora.

Cap 15: Desentendimentos
Engraçado como às vezes as coisas acontecem mais rápido do que a gente consegue guardar na memória. Enquanto vivia o momento, o tempo para a professora parecia não passar nunca. Mas agora, lembrando o desenrolar de tudo, os acontecimentos pareciam ter durado menos de 2 minutos entre a fala de Ana e o quarto de Motel.
– Posso ir com você? – Ana disse, fazendo Hellena mergulhar em milésimos de segundos de uma meditação profunda.
Um pensamento que foi do ódio seco de ter levado um fora depois daquele beijo, passando pelo sorriso lindo da veterinária e pela voz escrota de Armando dizendo “essa baixinha não combina…”, para ir cair direto no instante em que Hellena constatou que bastava mesmo apenas um aceno da designer para que ela esquecesse todo o resto e pensasse apenas no desejo insano que sentia por aquela pele tão branca.
O olhar reflexivo durou pouquíssimos segundos e, antes que Hellena aprofundasse qualquer  um dos pensamentos, sua cabeça balançava afirmativamente para uma Ana sorridente, um sorriso que parecia de triunfo. Antes de sair da festa, Hellena foi até Ana Cristina e disse que precisava ir embora. A veterinária estava conversando com uma de suas alunas (“essa garota tá chorando?”) e pareceu até aliviada quando a professora disse que precisava ir embora (“ela gostou?”). Hellena estava se preparando para dar uma desculpa para ter que ir sem poder ter uma conversa adulta com a veterinária, mas a outra não opôs qualquer resistência.
Armando, Raíssa e a loira antipática estavam rindo de algo com que realmente Hellena não se importava. Queria apenas sair dali. E foi. Ana reclamou um pouco quando entrou no motel, mas Hellena estava séria e parecia até um pouco irritada. Era nervoso. Poderia ter dito qualquer coisa para amenizar as coisas com a designer, mas a professora não estava a fim de perder tempo com uma discussão boba, nem fazer tipo.
Já dentro do quarto limitou-se a dizer: “Não vou entrar em casa bêbada desse jeito”. Não era verdade. Sequer estava bêbada. Mas não quis dar justificativa melhor. Jogou-se na cama e ficou zapeando pelos canais da TV enquanto a outra insistia que deviam ir embora.
– Está conversa está sinceramente me irritando. Se quiser ir, vá. Faça o que quiser. Eu não vou sair deste quarto – disse a uma Ana estupefata.
A designer esperava que a professora compusesse um clima romântico e esperava ganhar uns beijos ainda aquela noite, mas não esperava de modo algum que Hellena se comportasse daquela maneira. Hellena foi tomar banho. Enquanto a água caía, curtia a raiva contra o desejo desesperado que sentia por Ana.
Estava ansiosa, nervosa, com raiva, mas profundamente atraída por Ana. Ficou curiosa com o que teria feito a designer querer estar junto com ela novamente. Ficou preocupada com o que Cristina estaria pensando. Tentou dissipar os pensamentos e aproveitar o banho. Não conseguia.
A designer não esperava, mas entendeu a frieza da professora. Sabia que a outra ainda estava magoada com a forma como ela reagiu, exibindo o namorado e evitando contato. Não estava disposta a sair andando do Motel e calculou pela distância do centro da cidade, que pagar um táxi ara sair dali seria mais caro do que ela pretendia gastar.
Arrependeu-se de ter se metido novamente com a professora. Por outro lado, apesar de estar irritada, Hellena não oferecia um perigo real e, enfim, estava falando de uma mulher alta, bonita, divertida, atraente e visivelmente interessada nela. Ana jogou-se na cama e relaxou com a situação. A professora deixou passando clipes de pop rock na TV. Zapeou e caiu num canal de sexo. Quando Hellena abriu a porta do banheiro, a designer rapidamente mudou de canal.
A professora percebeu, mas não esboçou qualquer reação. Ana notou a falta de expressão. Hellena estava vestida novamente e deitou-se ao lado de Ana, que num reflexo de susto levantou e ficou sentada. A professora ficou um pouco mais irritada. “Acha que eu vou pular em cima de você?”, pensou olhando com certo desprezo para a designer. Falso desprezo. “Pois se eu me aborrecer, faço exatamente isso!”, tentou dizer com os olhos.
Ana foi para o banheiro. Ficar aborrecida não tinha a menor graça na ausência de Ana. Na verdade, quando aceitou levar a designer, Hellena tinha esperanças de que relaxassem e pudessem ter um fim de noite agradável. Mas o jeito naturalmente defensivo da designer e a lembrança de ter sido ignorada faziam Hellena perder as rédeas. Mas, já que havia deixado bem claro que dormiria ali e a outra parecia conformada, o melhor era tentar ser agradável e aproveitar a noite juntas.
Quando Ana saiu do banheiro, Hellena não conseguiu disfarçar o olhar. A designer estava com os cabelos molhados e enrolada numa toalha pequena, que escondia bem pouco de seu corpo. Hellena tentou fazer sua melhor cara de “tô nem aí” e continuou olhando a TV.
– Vai dormir vestida? – Ana perguntou, olhando a outra deitada. O súbito interesse da outra fez de novo aquelas borboletas alçarem vôo no estômago de Hellena. 

Cap 16: Pecado é provocar desejo

Estava difícil para a professora agir como se aquela fosse o momento mais desinteressante de sua vida. Ana estava linda. A pele muito branca parecendo gelada, os olhos meio avermelhados por causa da água, os cachos agora levemente ondulados pela água. Ana parecia uma pintura renascentista, um anjo com jeito de mulher. No entanto, Hellena fazia uma força enorme para se concentrar na pergunta e tentar não fazer uma cara de encantamento. E encantamento é a palavra exata para definir o que ela estava sentindo naquele momento. Tentou ser indiferente e concentrou-se na TV.

- Tô falando com você, reparou? – insistiu a designer, batendo a mão no cabelo para tentar secar os fios. O cheiro de shampoo (“de onde ela arrumou isso?”) acertou em cheio a calmaria de Hellena.

- Vou dormir vestida. Não trouxe pijama – respondeu a outra forçando uma voz neutra.

- Pode dormir enrolada no lençol. Eu pedi que trouxessem outro – argumentou a designer, apontando para o outro lençol e travesseiro em uma mesa no bar da suíte.

- Não acho uma boa idéia. Prefiro dormir de roupa – afirmou Hellena, sem entender muito bem que tipo de conversa era aquela que estavam tendo.

- OK – disse Ana, desistindo de tentar estabelecer um assunto.

Ela tinha outras maneiras de chegar onde queria e sabia exatamente o que queria. Ficou secando o cabelo enquanto Hellena fingia interesse pelos clipes na TV. Quando a outra fingiu cochilar (“como é que eu vou dormir desse jeito?”), Ana enrolou-se no lençol e se deitou ao lado de Hellena. “Como assim? Ela não está usando nada? Por que isso?”, pensou a professora, saindo do aparente catatonismo. Sentou-se na cama e encarou Ana Maria, que olhava displicentemente a televisão.

- Você vai dormir assim?!! – perguntou a professora um tanto indignada.

- Como “assim”?

- Nua!

- Hahaha!… Eu não tô nua… tô enrolada no lençol.

- Está sem as roupas – argumentou Hellena, entendendo que ali havia um jogo estranho, para o qual ela não estava preparada para jogar. Não era impressão sua. Ana estava sendo… “fácil?!”

- Estou com um lençol – disse Ana, com um sorriso cínico no rosto.

- Mas embaixo dele está nua.

- Eu estou de calcinha

- Sem sutiã?!!!

- Lógico! Você dorme de sutiã? – argumentou a designer. Ainda o sorrisinho, olhando para a TV.

- Não, mas não durmo sem roupa ao lado de alguém que quer me agarrar – Hellena sentiu que havia falado demais. A outra não respondeu. Essa era a Ana a que estava acostumada: encurralada como um ratinho. Ficar calada era o seu jeito de encerrar um assunto.

“Ei, mas peraí. Quem começou com essa coisa de dormir sem roupa foi ela. Logicamente, ela quer alguma coisa, mas não quer que eu mencione o fato. Na realidade, não quer conversar sobre a situação, sobre estar atraída e sobre eu estar absolutamente cheia de vontade de agarrá-la. Mas provavelmente me deixaria fazer o que eu quero fazer se a gente não falar sobre isso, pra amanhã fingir que não foi nada disso, que ela gosta do noivinho, que não vai rolar nada entre a gente… Ah, não Hellena. De novo você vai dormir sob o mesmo teto que ela, pensando em tantos prós e contras, no que é certo e no que é errado e depois vai passar uns dois meses pensando em tudo o que poderia ter feito agora. Vai ficar se torturando e achando que o mundo inteiro não presta. Ah, não senhora, isso tá errado”

- Isso tá errado!

- O quê..? – perguntou Ana, sem querer entender o que Hellena tinha a dizer.

- Você NÃO VAI dormir nua perto de mim.

- Como é…?!! – respondeu a designer num tom desafiador. Hellena achou um absurdo… de linda!

- EU estou falando que VOCÊ não vai dormir nua perto de mim…

- … Ou o quê?! – continuou Ana, no mesmo tom.

- Ou eu vou me dar o direito de fazer também o que eu quero, independente do que você esteja pensando.

- Faça como quiser – respondeu a designer levando as mãos para trás da cabeça, num gesto claro de quem não se sentia nem um pouco ameaçada pelo tom de voz arrogante da professora.

Helena não pensou duas vezes: puxou o lençol que cobria o corpo de Ana. A outra tentou segurar as mãos de Hellena, mas a professora era mais forte e estava numa posição privilegiada, guardando o lençol sob o peso do próprio corpo. Ana reclamou e xingou Hellena, mas eram palavras completamente inaudíveis. O som da TV, a voz de Ana, todos os sons do mundo emudeceram no exato momento em que os olhos de Hellena caíram sobre o rosa delicado dos bicos dos seios de Ana.

Eram seios pequenos, rijos, delicados. Com certeza caberiam inteiros na palma da mão de Hellena. Incrivelmente, a pele do montinho que segurava o bico rosado conseguia ser ainda mais branca do que a pele da barriga de Ana. A barriga perfeita de Ana, com uma fina penugem negra e cujos músculos apareciam cada vez que seus braços se mexiam. Os braços de Ana se debatiam tentando recuperar o lençol e Hellena segurou com força os dois no ar, virando seu corpo sobre o da outra mulher para prendê-la à cama. Braços pequenos e fortes. Terminavam em ombros com sardas. Dava certo trabalho prendê-la na cama, mas era o melhor trabalho do mundo.

Quando Hellena soltasse os braços de Ana haveria uma chance de ganhar um tapa no rosto. Então, já que estava ali, a professora achou por bem entornar o caldo de vez e abaixou-se para cheirar o pescoço de Ana. Só de olhar para aquela peça linda, com alguns sinais, curvatura perfeita e uma veia azul por trás da pele, a professora seria capaz de dissertar longamente acerca da importância de um pescoço bem feito. Renderia linda homenagem em palavras, mas nenhuma delas seria capaz de expressar tão bem sua devoção quanto o beijo suave, morno e devotado que pousou no pescoço de Ana.

O absurdo que era ter sido tomada daquele jeito pareceu ter perdido totalmente o sentido quando a designer arrepiou-se com os lábios lindos de Hellena. “Linda!”, Hellena sussurrou em seu ouvido e sentiu um puxão forte no meio das pernas. Eram líquidos que desciam descontrolados, obedecendo apenas a vontade louca de sentir aquele corpo pesando um pouco mais firme sobre o seu quadril.

Quando sentiu que Ana havia parado de lutar com os braços, Hellena correu a mão pela lateral do corpo da designer para descobrir a maciez da sua pele. Sentiu que a coluna curvara-se ao meio enquanto os dedos longos passeavam da cintura para o quadril. Hellena beijou-lhe o rosto e deixou-se cair um pouco mais sobre o corpo da outra. Ana ajeitou o quadril e não conseguiu segurar o suspiro forte que veio junto com um forte latejar entre as pernas. Hellena buscou a boca de Ana.

- …Não… – a designer sussurrou, despertando Hellena do mundo fantástico em que se encontrava. A recusa novamente.

- “Não” o quê? – questionou sem descer de cima da outra. Dessa vez foi Ana quem despertou. Não sabia ao certo o que responder.

- Não quero que me beije – falou sem qualquer convencimento.

- Como assim, não quer que eu te beije? Eu te beijei o pescoço e você estava gostando…

- Eu estava deixando. Não disse que estava gostando.

- Nem precisava dizer, o bico dos seus seios estão duríssimos e eu tenho certeza que você está molhada – retrucou Hellena, de modo impertinente.

Ana sorriu nervosa.

- Não sei de onde você tirou essa idéia…

- Daqui, ó!.. – Hellena respondeu apontando com a boca para oa seios enrijecidos de Ana.

- Já ouviu falar de frio? – retrucou a designer.

Hellena afastou-se um pouco mais do corpo de Ana e espalmou a mão direita sobre o seio esquerdo da designer, para logo a seguir apertar levemente bico rosado e girando o polegar com suavidade em seu ponto mais alto.

- Isso aqui está duro de frio? – perguntou Hellena cinicamente, sentindo a própria calcinha encharcar com o contato mais ousado.

Ana fechou os olhos involuntariamente, mas logo reagiu.

- É uma reação natural do corpo…- tentou dizer Ana.

- … do corpo com tesão! – completou a professora.

- Talvez, mas isso não quer dizer que eu esteja aceitando – argumentou a outra.

- Mas quer dizer que está gostando – respondeu Hellena.

Ana ficava confusa com a argumentação. Na verdade, queria sentir Hellena, mas não queria ter que assumir nem um tipo de responsabilidade sobre isso. Queria que a professora tomasse a iniciativa na cama e sossegasse aquele desejo enorme que tinha dentro de si.

Por outro lado, Hellena queria os beijos de Ana, suas carícias, queria ouvi-la dizer seu nome. Queria namorar, dormir abraçada e acordar apaixonada, sem medo de ser rejeitada. Hellena queria mais do que aquele jogo excitante de gato-e-rato.

Pensando em o que queria com Ana, Hellena sentiu que sairia triste novamente daquela situação. De novo a sensação de frustração e abandono. Sentiu a zanga crescendo dentro de si e decidiu levar pelo menos uma boa lembrança daquele dia.

Mergulhou no corpo de Ana e abocanhou o seio de maneira surpreendente. Ana não aguentou e arqueou o corpo com força. Adorava essa falta de argumentação misturada com os gestos impetuosos de Hellena.

Hellena não se preocupou com o jeito certo de fazer, não se preocupou em agradar, não imaginou que tipo de reação estava causando, apenas abocanhou o seio, roçando os dentes com suavidade no montinho branco. Magicamente, sua língua reagiu à invasão da boca e serpenteou pela aureola rosada. Os lábios se apertaram com um pouco mais de força quando ela começou a sugar com vontade, ora um, ora o outro seio, passeando a mão pela barriga e pelo bico adorado.

Beijou a barriga, lambeu os pêlos, sentiu o cheiro da pele, enquanto mergulhava cada vez mais naquele corpo lindo. Apertava os seios sem o menor pudor, descendo a boca em direção à calcinha. Quando lambia abaixo do umbigo, deu-se conta de que jamais se imaginou naquela situação. Estava prestes a fazer sexo oral em uma mulher e nunca antes tinha visto nem sequer tocado outro sexo feminino.

Enfim, Hellena Vargas iria chupar uma boceta.

Não, não era assim que ela queria. Desejava amor e não apenas sexo. Subiu rapidamente ao rosto de Ana e disse: – Me beija! Confusa, ofegante, cheia de desejo e sem querer ceder aos caprichos de Hellena, Ana virou o rosto.

No banheiro, segurando o choro embaixo da água morna, Hellena perguntava-se o que havia feito de errado. Pensou na primeira vez que viu Ana, no primeiro beijo roubado, na primeira vez que se agarram com vontade, nas decepções que sofreu. Tentou se controlar, mas, do nada, veio à sua mente a voz de Renato Russo cantando “…Pecado é provocar desejo e depois renunciar…”. Hellena chorou baixinho.

(continua)

25 Respostas para “Grandes Achados Vol. I”

  1. Taís Disse:

    Olá querida, tudo bom? Ontem vim visitar o seu blog e cliquei neste link pro conto. Ótimo conto, ia me distraindo e vendo de pertinho a história de Hell e Ana e… o conto não tem fim! Snif, fiquei com aquela sensaçao de acordar levando susto, sabe? Vim aki fazer coro as vozes que pedem a continuaçao do conto. Hellena e Ana tão na maior expectativa tbem hehehe

    Beijoss,

    Taís

  2. Sheila Disse:

    Faço minhas as palavras da Thaís…

    Ja tem um tempo q acompanho o Blog (apezar de nunca comentar)=D…

    espero q vc continue com a História.. *-*

    Bjuss

  3. Jakeline Disse:

    tava soh vasculhando o site e achei esse conto, n consegui parar d ler, continua ae, assim q puder, por favor!!!

  4. Marcela Disse:

    a continuação, por favor!!!

  5. Mallika de Lakme Disse:

    Atendendo a pedidos…
    Quinta-feira, cap 14, tá lindinhas?
    Xêro!

  6. Marina Disse:

    Oi Mallika,

    Adorei a surpresa do conto! Bom retorno ao “argh” trabalho. hehehe

  7. Fryda Disse:

    Bem vinda de volta!! Estou morta de curiosidade pra saber o que vai acontecer na história dessas duas…

  8. Bah Disse:

    Está incrível! Parabéns!

    Continuação por favor! [2]

  9. Marcela Disse:

    continuação por favor! [3]

  10. Mary Disse:

    Por favor não pare !!

  11. Mary Disse:

    Gostaria de uma resposta sobre a contianuação de Aurora, tô encantada.

  12. Bah Disse:

    cotinuaçãããããooo *-*

  13. carol wambach Disse:

    Oi….gostei da estória,ela tem continuação? Cofesso que fiquei envolvida nela..rs continua

  14. caline Disse:

    Oii! to adorando esse conto, mas vai ter continuaçao????
    na melhor parte.. srsrsrs

    bjos

  15. Erika Disse:

    estou me sentindo completamente frustrada, puts kd o fim?putaquepariu!!!

  16. Mallika de Lakme Disse:

    Tá vendo como atendo pedidos?? Postei mesmo!!!
    Chorem, crianças!
    bjsss

  17. Jess Disse:

    Olá, Malika
    O ultimo paragrafo ficou no “ar”. Acredito que as duas não fizeram nada, não é mesmo? Já tá virando rotina! rsrs

  18. rosana Disse:

    pelo amorrr de Deus, mande a continuação…

  19. rosana Disse:

    por favor, deixei de estudar pra minha prova, pra ler este conto…termina eleeeeeee

  20. chrys Disse:

    Se está história tiver personagens que estão na vida real, eu conheço esse professor ARMANDO =D

  21. Carla Disse:

    Vc foi dizer que só escreve sob pressão :P

    Quer… ops, PRECISO de mais! Continua ai, dona moça, antes que o feriado chegue e a quarta se emende com o sábado e o domingo com a quarta e por ai foi o boi co’a corda.

  22. chrys Disse:

    Continuação pelo amor de dadáááááá´!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  23. Mallika de Lakme Disse:

    k k k k k k k k
    Vou continuar, baby.
    Só porque eu acredito piamente no amor de Dadá.
    Te juro!

  24. chrys Disse:

    :$ Obrigada pelo baby rsrs (17 aninhos…)
    Jura mesmo? Poderia me add no msn? Sonho em te conhecer, juro!

  25. Nicas9 Disse:

    Para kdo é k temos a continuaçao do conto?
    Cá em Portugal tb tamos á espera!!!lol
    Beijinhos***

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