
"Estamos dando passos largos em prol da conquista de uma identidade literária"
Cara leitora, o Bolacha Recheada orgulhosamente apresenta: o LADO B da Escritora, ilustradora e designer Danieli Hautequest. B de bolacha, lógico, porque desde o início a gente avisou que o BR não é a VEJA.
Idealizadora, administradora e designer do portal abcLES, a escritora, de 32 anos, concedeu a entrevista por e-mail e explica a dinâmica e as novidades do site, que é o primeiro portal de Literatura Lésbica da internet brasileira. As meninas que seguiam o falecido Xana in Box puderam acompanhar a pomposa inauguração do abcLES, em 30 de maio de 2008, em Minas Gerais, onde Danieli está morando.
Para quem ainda não conhece o portal, Danieli esclarece que “no início o abcLES era uma espécie de cooperativa e selo de trabalhos com temática lésbica. Depois de um ano de existência, as metas se expandiram, e em 19 de junho de 2009, iniciou-se uma nova roupagem do Portal abcLES, focando a informação e cultura entre mulheres que amam mulheres.”
Revisando o texto, acho que faltou um pouco de sexo e fofoca nessa entrevista, mas da próxima ela não me escapa….
“AOS POUCOS AS AUTORAS ESTÃO SAINDO DO LUGAR COMUM”
Mallika – O site parece ter surgido como uma opção ao célebre Xana in Box, mas com uma proposta editorial e comercial. Qual era a idéia inicial do projeto e em que esta idéia se transformou?
Danieli – A proposta primordial do abcLES sempre foi a publicação de textos lésbicos de qualidade. O Xana in Box fez história, foi um espaço essencial para o surgimento de novos talentos, publicações e intercâmbio entre autoras e leitoras. No entanto, faltava ao site uma moderação, sobretudo um controle ao que se era postado. Não foram raros os casos de plágios e brigas, ou a publicação de obras inacabadas ou de qualidade duvidosa. O foco do abcLES era, e ainda é, de servir como um agente, um apoio às autoras para a publicação, seja ela apenas online, ou até mesmo impressa.
Mallika – O abcLES está passando por mudanças em sua estrutura. O que as leitoras podem esperar dessa reformulação?
Danieli - Mais e mais textos. Como agora não lidamos mais com assinaturas, nossa atenção está voltada para as publicações online, gratuitas, mas mantendo a qualidade que, apesar do pouco tempo de vida, conseguimos associar com nosso trabalho. O abcLES ainda continuará fazendo seu papel de agente literário, temos livros a lançar dos 2 Times que compunham nosso estafe de histórias exclusivas, um total de 11.
Mallika – Quais as principais dificuldades para se manter um site de contos com a temática lésbica?
Danieli - Encarar o trabalho com seriedade. A maior parte dos sites do gênero fecha prematuramente por falta de compromisso com as publicações e respeito por seu público.
Mallika – Quem são as autoras do abcLES. E o perfil das leitoras, vocês têm algum?
Danieli - Encaramos todas as autoras que publicam no site como “nossas”, pois são parceiras valiosas que acreditam em nossa proposta e cocedem seus trabalhos com tanto carinho. Contudo, posso discriminar as autoras que fizeram parte de nossos Times 1 e 2: Diedra Roiz, Karina Dias, Danieli Hautequest, Mamba Negra, Bra Pirate, Wind Rose, Jackie Rodrigues, Kriz, Marcia Paula, Mariah Galveia e BruneLLa Wyvern. Quanto ao perfil das leitoras, assim como os diversos estilos de narrativa empregados por nossas autoras, temos os mais variados. Tentamos atender a todos os gostos.
Mallika – Não sei se estou muito errada, mas acho a quantidade de “ativas” no abcLES bem menor do que no XinB. Falo sobre a quantidade de postagem de contos e de tópicos com comentários. Se eu estiver correta, a que se deve essa participação mais “tímida”?
Danieli – Sua comparação foi equivocada, temo dizer. Não há como fazer uma justa, uma vez que os dois sites têm particularidades distintas. Em primeiro lugar, o XinB ficou vários anos no ar, nós temos apenas um ano e dois meses de vida. Além disto, como no XinB não havia uma moderação sobre as postagens e comentários, “qualquer coisa” era postada, além dos diversos problemas com o site, que obrigava a autora postar cada capítulo em separado ou as histórias várias vezes. No abcLES nada vai ao ar sem que seja aprovado, inclusive comentários, e as histórias seriadas são contabilizadas como uma postagem, já que seus capítulos são divididos dentro do mesmo arquivo. Sem falar que tivemos uma migração de sistema, os comentários do antigo foram todos postados como um em suas respectivas histórias, o que diminuiu a quantidade das estatísticas apresentadas atualmente no site. No mais, dentro de nossa realidade, o site vai muito bem, cada dia nosso número de visitações é maior.
Mallika – Muitos contos lésbicos são tidos como puramente eróticos. Romances açucarados com boas doses de erotismo. O que você acha sobre esse tipo de afirmação?
Danieli – Infelizmente, é verdade. Ainda não saímos do estigma folhetim, mas, que bom, estamos dando passos largos em prol da conquista de uma identidade literária. Nos últimos anos temos tido a publicação, seja online ou impressa, de boas obras com qualidade literária desenvolvida. Aos poucos as autoras estão saindo do lugar comum e se aventurando em gêneros como ação, fantasia, policial, suspense e comédia, focando a trama como um todo, o romance das “mocinhas”, apenas, um detalhe a mais.
Mallika – Na sua opinião, qual a importância desse tipo de literatura para a nossa sociedade?
Danieli - Visibilidade. Cada texto, online ou impresso, que mostre que existimos, que quebre tabus e ajude a questionar o preconceito, é uma conquista. Por isso mesmo, minha preocupação, sempre, com o que se é publicado. Em alguns casos, pode ser uma faca de dois gumes.